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quarta-feira, outubro 06, 2010

Pra galera da estrela ...

Alô você, que também estava todo ansioso e animado com a tal festa da democracia, e acordou segunda-feira com a ressaca-mor, essa que dura até agora. 
Venho por meio desta informar que "tamo" junto. Que quero estar junto. Mesmo.
Veja, mudei meu voto ideológico no Plinião pra não ter segundo turno. Juntei todo o meu incômodo com escândalos, alianças contestáveis, políticas econômicas e trabalhistas, e varri pra debaixo do tapete. 

Por enxergar sim o mérito e os avanços, por acreditar que vale a pena continuar. Mesmo com governismo e social-democracia. Pra além da minha total ojeriza para com a opção sucateante-preconceituosa-alienante-psdebista, para com a figura do Serra, para com a maneira com a qual eles sempre levaram campanhas e debates difamações terroristas.
Daí a gente acorda com segundo turno, Marina com vinte por cento, Alckmin por mais quatro anos, Marta quase não-eleita, e as bancadas com representantes bizarríssimos.
Daí a eleição que pra mim era a eleição dos avanços democráticos agora tá pautada no retrocesso de valores, e no fundamentalismo religioso.
É um soco no estômago. Eu sei. É a gente guardando os fogos e o champagne que tava trincando. É perceber que ainda estamos bem mais longe do que parecia.

Mas hey, vale-tudo não, né.  Dependendo da forma como "consertarem" o posicionamento sobre aborto, cogito, com a maior dor no coração, anular meu voto. Perdem meu apoio. E eu realmente não quero fazer isso.
Não que eu espere legalização do aborto como uma proposta a ser listada. Entendo que é toda uma discussão que tá muito incipiente e precisa de chão pra ser aprofundada. Mas  falar que nunca, ratificar que é assassinato, pisar nas lutas das mulheres pra ganhar de qualquer jeito, eu não consigo varrer pra debaixo do tapete. Seria o meu estopim. Se ainda não dá pra ajudar, por favor, não atrapalha.

Então fico aqui torcendo pra contornarem a situação esclarecendo e desmitificando boatos, e não chutando meus direitos por serem polêmicos.  Porque sério, nunca quis tanto fazer campanha como agora. Nunca quis tanto tentar desconstruir essa maldita onda verde SWU -  de palavras bonitas porém vazia, pouco propositiva e resolutiva, de protesto raso-pontual, com esses por cento de cegueira dogmática plebiscitos e pseudo-honestidade.

Então não me expulsem do barco. Não façam a gente andar pra trás. Não joguem toda uma história no lixo por medo de perder. 
'Bora ganhar dignamente. É o que eu espero. Também assustei, broxei um tanto, ando receosa com viradas baseada em boatos e na força do anti-petismo. Mas "tamo" junto, porra. Só não desesperar - e apelar. Deixa isso pra eles. Confia!    

quarta-feira, outubro 28, 2009

Da rapaziada ...

Não é preciso ter lido todos os teóricos e fazer falas fantásticas. Não é necessário saber de cor a cronologia político-partidária brasileira. Na verdade mesmo, expressar-se citando os termos "apropriados" e palavras difíceis também não é importante.

Basta parar por uns instantes pra observar as coisas ao redor, pensar um pouquinho sobre elas e principalmente, incomodar-se. Num primeiro momento, nem há a necessidade de conseguir verbalizar organizadamente o porquê do incômodo, de analisar a conjuntura, e de propor alternativas. É só sentir aquela coceira ao presenciar-escutar-ler acontecimentos do dia-a-dia.

E eles se incomodaram.
Incomodaram-se porque entendem que a universidade é mais do que aulinhas pra preparar pra futura profissão. Que ela tem que ser pensada diferente, vivida diferente. E que nela a gente pensa diferente também o mundo. E discorda, discute, disputa, apanha, aprende, cresce, constrói.

Incomodaram-se porque entendem que ela não é um clubinho que premia quem passa na provinha. Clubinho cercado por portões, os quais a gente abre vezenquando pra "população". Em iniciativas assistencialistas-unilaterais-pontuais. Que no fundo são só formas da gente testar nossa prática da futura profissão em campo. Mas chamamos de "extensão", dizemos que o aprendizado foi mútuo, e ficamos todos de consciência limpa por termos feito uma boa ação, quase que uma caridade. Bons samaritanos que somos. "Devolvendo" algo para a sociedade que paga por nossos estudos.

Incomodaram-se com as desigualdades todas, com a demonização dos movimentos sociais e das políticas afirmativas. E criticaram. As propostas vazias e meramente eleitoreiras, o pseudo-apartidarismo, a apatia-abstenção em qualquer tipo de discussão de questões do mundo além-bolha.

E eu nem me lembro de tê-los visto antes pelos corredores. Mas disseram tudo isso. Tudo isso lá. No pseudo-Olimpo alienado, preconceituoso e corporativista. E eu achei lindo demais.
Lógico que depois o nível de debate caiu até o inferno, os ânimos se exaltaram, e aquelas falas e idéias todas meio que se perderam para a maioria em meio ao circo.
Mas pra mim, não. Elas continuaram ecoando e ecoando. Quando ressoa não se perde assim por qualquer besteira. Nem com o picadeiro em chamas.

Porque a gente percebe quando acha alguém do "grupinho". Há aquela sensação de identificação, de pertencimento. Que é tão importante em ambientes inóspitos. Porque com o tempo vai rolando um desgaste inevitável, uma sensação de estar falando com as paredes, de que não tem muito como disputar quem não se importa com desigualdades e injustiças tão gritantes. O tipo alienado-vive-feliz-em-sua-própria-bolha-foda-se-o-resto facilmente vai na onda dos reacionários-inteligentes-articulados. E dá tanto trabalho pra qualquer semente de proposta vingar num solo desses.

Daí que não me importa a derrota nas urnas. Não mesmo. Importa é que eles se incomodaram. O suficiente pra juntar um grupo e falarem tudo aquilo. Que a gente sabe que lá é o mesmo que oferecer a cara pra porrada. Que a gente sabe que significa "perder" coleguinhas de turma e aguentar piadinhas e provocações na sala. E eles aguentaram os socos todos, a falta de respeito, os argumentos vazios, e até as ações de má-fé mesmo.

E tudo o que eu mais queria é que eles entendessem a minha alegria frente ao suposto desastre. Que conseguissem levantar a cabeça e sentirem-se satisfeitos como eu estou. Porque eu aprendi cada vez mais a comemorar cada semente crítica e potencializadora, ao invés de deprimir por cada milhar de perpetuadores do que está aí.

É uma bosta mesmo. Esse caminho que a gente escolheu, o lado em que acabamos ficando quando sofremos da coceira do incomodar-se. É de pouquinho em pouquinho. Um por um. Pelo menos até chegar no número suficiente de conseguir explodir o parlamento contaminar a plantação.

Mas mesmo no chão insalubre eles surgiram. E tem tudo pra surgirem outros tantos que ouviram-leram tudo o que eles disseram. E isso deve ser comemorado sempre.
E eu só queria que eles entendessem tudo isso. Que fez meu dia saber que tem gente chegando enquanto a gente tá saindo. Que dá força de continuar nas próximas instâncias. Que essas "pequenas" vitórias são tão importantes. Que eles ali minoria, debaixo do palanque, longe dos holofotes, nas esquinas negligenciadas, são tão importantes, porra.


sexta-feira, julho 24, 2009

#Bitchin'day ...

(Sétima tentativa disso postar. Quase desistindo do blogger ...)

Daí que eu sou feia, frígida, sem senso de humor, mal-ou-não-comida. Fundamentalista também se aplica.

Porque obviamente é isso o que justifica minha cara de reprovação frente aos comentários jocosos e preconceituosos de hoje pela manhã. Depois de uma implicância exagerada e totalmente desnecessária de uma das enfermeiras. Porque óbvio que o motivo do comportamento todo da moça só pode ser uma coisa. E aí começaram com várias explicações engraçadinhas pra chatice da mulher. S.V.V. (Síndrome da Vagina Vazia). Risadas. Anemia ferropriva (por falta de um certo tipo de ferro fálico). Risadas novamente. Isso aí é falta de alguém que a pegue de jeito. Mais risos. E meu olhar ficando cada vez mais homicida.

Mas é só porque a Mari é mal-humorada, principalmente pela manhã.

(Não, não é só isso.)

Então deve ser porque ela também tá precisando dormir acompanhada.

(Ele veio dormir em casa ontem.)

Ah, vai ver ele não deu conta do recado.

(Super deu.)

A Mariana é assim geniosa, e exagerada. Implica com cada coisa pequena.

Meu querido. Coisa fofa da tia. Não é questão de gênio ou bom humor. Pra mim é mais profundo. Porque tá implícito nesse tipo de comentário valores tão retrógrados e preconceituosos que me revira o estômago. Sério. E me dá enjôo quando vejo que as pessoas continuam repetindo isso tudo, entendendo e não entendendo. Não é ficar procurando pêlo em ovo. A referência tá clara pra qualquer um ver. Não é preciso nem desenhar.

Porque teve um dia em que um colega fez um comentário sobre um professor - que nunca sorria e adorava torturar alunos. Ele disse que era porque o professor era sozinho. Aí a gente viu a aliança enorme na mão esquerda do cara. Foi quando o colega retrucou dizendo que então a mulher dele devia estar com dor de cabeça toda noite há meses. E eu achei que deu um tom diferente. Aquela história da camiseta 100% branco não ser equivalente à 100% negro. Porque quando a piada envolve sexo e o bem-estar do ser humano, beleza. Acho válido. A questão é quando enviesa pra gênero. E pressupõe papéis sociais distintos - e sua hierarquia. E eu enxergo muito esse quê de função social enviesada inerente aos comentários “espirituosos” sobre a enfermeira. Muito. Reverbera a disparidade de poder nas relações, e o estereótipo bizarro. Então não é uma pequena coisa cotidiana. “Porque é no trivial que a reificação acontece e que o imaginário permanece poderoso.”

Mas aí eles – os meninos engraçadões - chamaram duas meninas gracinha, e contaram as piadinhas pra elas. E elas acharam graça. Tá vendo, Mari. Elas gostaram. Pára de implicar. Que fundamentalismo o seu. É só uma brincadeirinha inocente. As meninas entenderam. Você não.

Mas é porque eu sou chata, implicante, e exagerada. Fico vendo complicação onde é simples. Significando toscamente o que é inocente. Querendo pagar de questionadora e militante de antigamente. Hoje em dia não tem mais um porquê. A gente não bate em mulher, não tem preconceitos, defende direitos iguais, então não vem com essa pra cima da gente que não cola.

E toda vez que despertam minhas implicâncias, eu volto pra casa meio murcha. Porque é uma bosta esse fardo de mal-comida. E eu fico repensando e repensando e tentando analisar se será que não tem algum ponto onde realmente exagerei e etc. e tal. E comentários bizarros lidos ao fim da noite sobre o tal do #lingerieday me fazem murchar ainda mais. E achar que 2009 ainda é começo.

Mas eis que o Reader atualiza, e a Mary – como quase sempre – matou a pau. Motivações, sabe. Faz ganhar o dia. Precisamos de mais chatas-loucas de almoços de família.



sábado, junho 27, 2009

The importance of being Idol ...

Porque milhares de pessoas se reuniram em avenidas pra cantar as músicas dele - em meio a flores, velas, e mensagens emocionadas. Porque não se fala em outra coisa.

Porque tem gente que precisa de muito menos do que acusações de abuso infantil e envolvimento com substâncias controversas, comportamento recluso e patológico, ou uma insatisfação tão gritante com a própria imagem - quiçá passado/origem - que acabou por terminar numa espécie de auto-mutilação. Tem gente que precisa de muito menos do que isso pra levantar a ira e o repúdio mundiais, e no entanto hoje o mundo inteiro tá com aquela cara de parece-que-morreu-algum-parente-meu.

Porque eu fico olhando pra vida dessas pessoas – os gênios – e sempre tive vontade de perguntar pra eles se eles acham que vale a pena, serem gênios. Porque olhando assim de longe, eu fico com a sensação de que deve ser muito difícil, sabe. A impressão que dá é que eles não pertencem, não se encontram, não são felizes. Que não foram feitos pro nosso mundo, não entendem a nossa sociedade.
Acabam levando a vida solitários, tentando lidar da forma menos insana possível com o absurdo de tanto exagero ao redor. Sucesso, dinheiro, poder, idolatria, oportunismo, vício. Numa busca incessante por alguma forma de plenitude e sossego que nunca alcançam.

E a gente também não ajuda. Eles vêm, nos tocam e nos influenciam de tal maneira, e retribuímos perdendo o bom senso e muitas vezes o respeito. Não os deixamos respirarem, entramos numa perseguição doentia alimentada pela curiosidade sórdida, pela sede de qualquer tipo de notícia que nos aproxime ainda mais deles. Porque fazer parte tão importante do nosso dia-a-dia através da arte aparentemente não é o suficiente. E assim acabamos nós também contribuindo pra perpetuar o pior.

E é por tudo isso que eu sempre quis saber a resposta deles.
Porque agora eu olho pra todas as manifestações de carinho e gratidão. Olho pra história da cultura pop e da música, das quais ele indubitavelmente é ícone. Vejo o quanto ele marcou toda uma geração. E acho que vale a pena.
Mas aí eu vejo o sorriso daquele menininho negro com um talento tão imenso que já não cabia nele. E comparo com o rosto branquérrimo e deformado dos últimos anos, emanando fragilidade e um peso que também parecia que já não cabia mais nele. Aí eu assisto às pessoas desoladas prestando homenagens tão bonitas em cada canto do globo, enquanto muitas manchetes giram em torno do tal exame toxicológico e das polêmicas da custódia das crianças e das dívidas.
E então eu me pergunto se vale a pena. Se é um preço que compensa ser pago.

No fundo, assim numa esperança egoísta, eu gosto de pensar que ele me responderia que sim.
"Sim, Mariana. Apesar de não ter tido infância, de ter sido explorado e traumatizado pela minha própria família, de ter vivido com uma angústia constante, de ter enlouquecido no meio de tanta grandeza. Apesar de mesmo agora que morri, pessoas estarem mais preocupadas em saber detalhes mórbidos da minha autópsia e em discutir aspectos médicos da minha morte do que em comentar sobre o meu legado e sobre meus projetos sociais. Apesar de tudo isso, vale a pena nascer gênio. Eu gostei de ter passado por aqui, gostei de ter sacudido um pouco as coisas e ter feito história. E pelo menos por alguns momentos, cheguei a ser feliz."

Farewell, Michael. 'Brigada. O que seria da gente, sociedade, sem vocês gênios pra continuarem nos encantando/influenciando/mudando/chocando sempre? Uma pena que o preço costuma ser tão estratosférico quanto o talento de vocês. E infelizmente, ninguém - nós, a família, os amigos, ou vocês próprios - faz a mea culpa. Muito menos reflete e aprende com os excessos cometidos.

Rest in peace, babe. You deserve it.

quinta-feira, junho 11, 2009

Cansei eu!


"Não é uma sugestão. Porque eu sei que excesso de diálogo assusta as pessoas. Mas eu estudei na Universidade Federal de São Carlos. Para alguns, não existe outra que seja tão vanguarda. Para mim, certamente não há.

Pois havia um Restaurante Universitário por lá. E a refeição era grátis. E um dia quiseram cobrar. E o DCE ficou puto. E todo o movimento estudantil ficou puto. E o Susto ficou mais puto que todo mundo. Porque ele era *o* revolucionário. Eu vivia dando pro Susto. Por que, né? Eu sabia que nunca mais comeria um comunista de fato, quando saísse da UFSCar.

E então foi todo mundo pro Restaurante, seguindo o Susto. Puto. Chegando lá, havia uma caixa registradora no corredor que dava pra entrada do Restaurante. Quando o pessoal foi se aproximando, eles fecharam a porta de vidro do Restaurante. E ficou todo mundo no corredor. O Susto não teve dúvidas. Pegou a caixa registradora, símbolo da nossa opressão, e tacou na porta de vidro. Que espatifou. E o Restaurante era nosso de novo etc.

Ok. Depredou o patrimônio público. E a Reitoria abriu um processo para jubilá-lo. Ele e outros vândalos. A comunidade universitária se dividiu. Se mobilizou. Se apaixonou. Etc. Mezzo mozzarela. Mezzo calabresa. Como quase sempre.

E então chegou o dia. E o reitor tomou uma decisão e tanto. Ele fez uma audiência aberta. Com pinta de assembléia. No anfiteatro da reitoria. E ele falou coisas tão legais nesse dia, o reitor. Que fizeram com que eu visse que o Susto não passava de um tonto.

O reitor falou sobre liberdade. E sobre como ela começa e termina. E o mesmo sobre direitos. E falou sobre aspectos técnicos da decisão de cobrar. Mas concentrou-se mesmo na expulsão do Susto. Ele falou sobre por que expulsar. E principalmente por que não expulsar. E eu nunca vou conseguir repetir o que foi dito. Porque eu era uma menina e foi me causando um forte impacto.

E o reitor ali. Refletindo em cima do que fazer diante de uma porta espatifada. E o Susto ali. Com cara de tonto. E aí deu-se o mágico. O reitor disse que era hora da decisão. E pediu pra todos no anfiteatro. Vamos votar. Quem quer que o Susto saia. Quem quer que o Susto fique.

E todo mundo votou pedindo pro Susto ficar. E quando todos os braços estavam levantados. O reitor levantou o dele também. E assim teve gente que descobriu que ser contra espatifar portas, significava votar pela permanência do Susto. O tonto. Que saiu de lá se gabando. Que é mesmo a única coisa que ele sabia fazer.

Eu descobri um monte de coisas esse dia. Um monte. Coisas importantes sobre o sentido da vida e blá. Mas descobri, também, o que é uma comunidade universitária. E o quanto ela é importante. E como ela permite. Outros mecanismos e outras coisas. Enfim. Foi inesquecível.

O meu reitor se chama Newton Lima Neto. Eu já contei isso mil vezes aqui. Depois ele se tornou prefeito de São Carlos. É considerado o melhor prefeito da história da cidade. Fez o sucessor e é da linha pragmática do partido dos trabalhadores. Tem cartaz com o Lula e é sempre muito cotado pra ser candidato a governador.

O DCE tinha um caixão e quando o Newtão pisava na bola, havia um enterro simbólico dele. O cortejo andava pelo campus e o Susto, mesmo depois do episódio, sempre ia na frente, segurando a alça.

O Newton fez tanta coisa em São Carlos. Mas toda vez que me perguntam porque eu gosto dele, eu digo. Porque ele fez uma assembléia pra decidir o destino do Susto."


Mary W., uma de minhas feministas favoritas
.

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E não é só o fato d'eu não ter uma universidade como a dela. Nem um reitor como esse. Não é a incapacidade de um mínimo de diálogo no lugar onde ele deveria ser pilar de relações e decisões.

O que continua engasgado aqui dentro é a quantidade de pessoas se manifestando a favor do que foi feito. Porque aí passa da questão do olhar-somente-pro-próprio-umbigo, é mais profundo. É justificar o injustificável.


Porque não há nada que você possa vir a me dizer que venha a me convencer que tal forma de violência deveria ter existido. Foi além da agressão física, muito além.


Você pode não concordar com as pautas dos grevistas, as táticas utilizadas, os dois-ou-três que jogaram tijolos, os três-ou-quatro que "provocaram", quem parou-o-trânsito-e-te-fez-chegar-atrasado-no-trabalho, os rumos do movimento estudantil, e a representatividade das assembléias.

Chame de baderneiros, comunóides folgados, gente que não quer estudar e não dá valor à vaga que tem, massa de manobra de partidos esquerdistas radicais, depredadores de patrimônio público, contraventores da constituição, ou qualquer outro jargão do gênero.


Apesar d’eu discordar diametralmente, é um direito teu pensar assim. Direito, percebe?! De se expressar, de reivindicar, de chamar atenção pro que tu acha importante, de exigir que haja a possibilidade de debate, ou de simplesmente ficar revoltadinho porque os gritos de “alguéns” pelo que acham importante atrapalharam teu dia-a-dia e tua aulinha no ICB.


Mas apoiar tal ato ditadorial? Achar que vale tudo para preservar a “ordem”? Que é válido utilizar sprays de pimenta e bombas de efeito moral como instrumentos políticos?

É cuspir em cima de toda forma de liberdade que existe - ou que deveria existir. Não é "apenas" um crime, não é só porque faz todos aqueles que um dia já lutaram e/ou morreram pelo direito de se manifestar se revirarem nos caixões - ou cemitérios clandestinos.


É você, ser humano (?), achar que tudo bem um outro ser humano APANHAR e ser PERSEGUIDO porque ele defende algo com o qual você não concorda e de alguma forma fez com que você se sentisse prejudicado. APANHAR e ser PERSEGUIDO. Daí pra ser assassinado/torturado porque discorda é um passo. Pequeno, eu diria.


Que mundo é esse, gente? Que tipo de pessoas são essas?


Se fossem apenas meus coleguinhas de faculdade, eu estaria mais tranqüila, não surpreende tanto mais - apesar de continuar despertando revolta. Mas aparentemente, e infelizmente, são milhares muitos outros espalhados por aí.

Vergonhoso. Intolerável. Não os deixemos fazer mais barulho do que a gente. Nunca.

domingo, maio 31, 2009

How to disappear completely ...

Um mundo repleto de lua, samba, cerveja e fumaça. Onde conhecidos ou nunca antes vistos conversam animadamente e filosoficamente sobre qualquer assunto que surja. Meninas dão beijos cinematográficos e meninos ficam de mãos dadas sem o menor pudor. Estilos todos se misturam sem qualquer tipo de preconceito. Fotografia, jornalismo, moda, sociologia e música ali na mesma roda.

E eles me contam de exposições, teatro, filmes. Falam de viagens, cultura, de seus novos projetos. Me indicam livros e canções. E depois de tudo, ainda me deixam na porta de casa.
O sol já nascendo mais uma vez, meu dia prestes a começar daqui a algumas míseras horas, e o cansaço gigante não consegue ser maior do que o sorriso.

Que bom que eles existem, meu deus. Que bom que não dão a mínima pra estereótipos. E me recebem sempre com uma cadeira cativa, um isqueiro funcionante, e um copo trincando.
Se soubessem o quanto me faz bem frequentar esse mundo. O quanto me faz bem saber que tenho meu cantinho de fuga. Porque enquanto lá, eu desabafo, me reivento, me renovo, e esqueço.

Do sangue, do choro, das notícias de incurabilidade. Das pessoas falecendo, a centímetros de distância, bem ali na minha frente. Dos ideais retrógrados e corporativistas. Do tsunami de sentimentos confusos e proibidos dos últimos tempos.

Pensar en cosas, hace que las cosas vengan.
E tudo o que eu quero nesses momentos de folga é umas horinhas longe delas todas. É ficar quieta e imune no meu espaço; no meu mundo de lua, samba, cerveja e fumaça.
E sair de lá com aquela sensação de que amanhã de manhã, quando a gente acordar e vestir novamente o avental branco, a felicidade vai desabar sobre os homens. Vai, desabar sobre os homens. Vai, desabar sobre os homens.



domingo, maio 17, 2009

Exit text (for a routine) ...

É a notícia de que lhe restam meses de vida. A tentativa de suicídio que te desfigura totalmente. O acidente nas férias que deixa sequelas para sempre.

É você o motorista embriagado na colisão que matou teu melhor amigo. Ela achando que viver não vale mais a pena bem ali no meio da sala, e ninguém nota. Duas das pessoinhas mais queridas destruindo uma amizade de anos, e não há nada que possa ser feito para impedir.

É a angústia acumulada de meses. Pilhas e pilhas acumulando. De vontades, dúvidas, cansaço, lágrimas e pensamentos. Em dias cada vez mais longos.
Não adianta dizer que vai ficar tudo bem. Porque agora não resolve. Por mais que seja verdade, isso agora não conforta.
A sensação de impotência faz tudo parecer maior e mais devastador. O metro e meio nunca foi tão pouco, a cama nunca foi tão grande.

Às vezes tudo o que a gente quer é uma xícara bem quente de capuccino com nicotina ao fim do dia. Junto a um alguém que sussurre uma canção bonita e fique por perto até conseguirmos dormir.
Mesmo que seja fantasia, mesmo que seja em sonho. Porque nele eu te sequestro e a gente escapa.

Respira fundo, devagar, deixando a fumaça escapar aos poucos.
Sem desistir, babe. Eu não conseguiria sozinha.
Continua com a canção que aquece. Mais um gole. Agora sente o aroma e fecha os olhos.
Um só, vê? Somos um só. Finalmente em paz.
Quanto ao resto? Tomara que sufoquem.

Ah sim, eu sei, linda a casa mesmo. Linda vista, belo jardim. Mas confesso que ando sentindo falta dos pássaros. Já faz um tempo que não escuto os cantos. Só espero que não tenham migrado para longe, fugindo desse inverno que aparentemente chegou com força total. Continuo os esperando na janela.

Precisa mesmo acordar? Nada de despertador, vai. Só por hoje.
A quiet life with no alarms and no surprises, please.
Silence...



"Mas se era um sonho, repetiu, num sonho pode. Num sonho pode tudo."

quarta-feira, abril 29, 2009

2 + 2 = 5 ...

E é tal qual um blind-date o que acontece diariamente ali em meio àquelas paredes. Eu chamo, nós dois nos olhamos, e a partir daí nunca dá pra saber o que de fato vai ocorrer. Não adianta ficar planejando metodicamente ou decorando muitos scripts.

Tem vezes em que a empatia é instantânea, quase que mágica. O papo flui sem que você precise fazer o menor esforço. E quando me dou conta, já estão a se despir sem o menor constrangimento - como se nos conhecêssemos há séculos.

Tem aqueles que logo na apresentação já dão bom-dia esboçando um sorriso acolhedor, o que acaba alegrando mesmo a segunda-feira mais ingrata. Os sérios e os visivelmente nervosos a gente tenta quebrar com alguma piadinha espirituosa. A piadinha também costuma funcionar com os que não conseguem disfarçar a expressão desconfiada de essa-pirralha-recém-saída-do-colegial-não-deve-saber-nada-de-medicina.

Com os adolescentes, a gente fala sobre música e sexo seguro, e eles ficam me olhando com uma cara espantada quando começo a perguntar o que pensam pro futuro. Porque nessa idade eles têm sonhos lindos, utópicos-e-megalomaníacos, e além de eu adorar escutá-los, nunca é demais ouvirem que podem sim alcançá-los. Mesmo nascendo e vivendo em condições nada ideais - muito menos justas.

Com as vovozinhas, a gente presta atenção nas estórias de vida e elas retribuem com um abraço afetuoso. Vale também mandá-las puxar minha orelha se eu começar a falar muito rápido e atropelando palavras, como é o costume.

Os monossilábicos, os mal-educados, os que te cantam, e os que mal olham na tua cara são um desafio imenso à paciência e ao humor. É quando a gente respira fundo - várias vezes - e tenta dar o fundamental de cuidado de que eles precisam. Ao mesmo tempo em que fica xingando mentalmente e querendo que eles saiam de lá o mais rápido possível.

E é claro que é sempre muito gratificante quando ouço um "muito obrigado" sincero, um "doutora, você é muito atenciosa", ou "queria que fosse você quem me atendesse nas próximas consultas". Mas o que faz valer a pena mesmo, o que me faz ganhar o dia, é quando percebo que talvez algo do que eu tenha dito além medicina vá fazer pelo menos um pouco de diferença na vida daquela pessoa, que vai ressoar de alguma forma – já que sempre ressoa na minha.

Porque não é só examinar, prescrever remedinho, e trabalhar pelo serviço público. Não é só se indignar com os canalhas aos montes, entristecer-se com as desigualdades, e achar que isso te isenta de qualquer culpa. A solução não é ficar com pena, votar, e ir dormir com a consciência tranqüila.

Tem tanto que eles - a senhorinha, o jovem, a mulher do sorriso acolhedor, e o monossilábico - podem fazer por eles mesmos; pequenas mudanças no dia-a-dia, na própria comunidade. Às vezes falta só alguém prescrever lentes e acender luzes pra que eles próprios possam enxergar que há sim um caminho diferente, de melhores condições e oportunidades; que há sim alternativas. E para ter esse carimbo, tal receita, e o isqueiro em mãos não é preciso ter CRM, basta ter RG.

Não é caridade, sabe. É simplesmente fazer a parte que te cabe sempre que algo incomoda. Abster-se também é posicionamento. É contribuir para deixar como está. É de certa forma concordar. Ou pelo menos, não discordar o suficiente.

E óbvio que não é fácil, mas talvez seja menos impossível do que a gente tende a imaginar. Pra um dia vir a dar certo, só é preciso que alguém comece. Só é preciso que eles também se vejam como algo mais; como questionadores, fiscalizadores, e - principalmente - potenciais transformadores disso tudo. Tanto quanto eu. Mais do que eu.
A voz deles pode ser mais forte do que tudo o que tá aí. Merece ser mais forte do que tudo o que tá aí. Porque na verdade, não são eles e eu. Somos nós. Ou pelo menos é como deveria ser.


"Cutucou por baixo, os de cima caem."

quarta-feira, abril 08, 2009

Uma delicada forma de calor ...

A garotinha de 15 anos e lápis-preto-no-olho - viciada em ICQ, Alanis e Red Hot - sempre imaginou e esperou por tudo isso ansiosa.

A casa "própria", a faculdade dos sonhos. Cerveja, cigarro, amigos, amores, sexo. A vida que finalmente aconteceria para além da internet, dos filmes, dos livros, dos sonhos.

A mulherzinha de 23 anos e lápis-preto-no-olho valoriza sim - e muito - estar aqui, mas anda sentindo saudades.
Das tardes à toa, dos filmes e livros, das músicas, das pessoas. Ah, as pessoas ...

Queria estar mais perto. Queria poder participar mais. Ouvir dos acontecimentos da terça-feira na própria terça-feira. Ouvir as vozes, mesmo que sejam de F2 em F2. E enxergar todos eles, mesmo que sejam os saudosos borrões daqui da ponte aérea, nordestinos, europeus.

O pensamento, todavia, continua sempre junto. Ao passar por algum lugar que desperta lembranças, ao ouvir alguma canção que remete. Ao brindar, ao tragar, ao reconhecer sotaques e palavras fofas pelas ruas da zona que não é a norte, não é a minha.

Por isso os e-mails, os torpedos e scraps, as ligações no final do dia. Porque há sim toda uma nova atmosfera. De atendimentos, procedimentos, cirurgias. Muitas aulas e pouco sono. Há sim novas pessoas.
Mas é aquela coisa toda das raízes. Firmes, fortes, porto-seguro. E eles são as minhas. De onde eu vim. E para onde eu vou sempre que a neblina predomina.

Dificuldade em se desapegar? Sempre tive. Mas não dá para negar que ainda assim continuo andando para frente. Numa velocidade das maiores dos últimos tempos - ora empurrada, ora com pleno controle dos pedais.

E eu nunca fui dessas de não olhar para trás. Porque te lembra do propósito de tudo, do quanto custou chegar, do quanto foi bonito, e do que te moldou assim. Lembra do que um dia pertenceu e agora só permanece na memória, e do que ainda faz parte.

Eles ainda fazem parte. Talvez não da mesma forma e com a mesma frequência. Mas continuam cativos naquele espacinho querido de sempre. Mesmo que agora eu demore dias para dar sinal de vida, deseje parabéns com atraso, esqueça dos horários combinados, e durma em cima das mesas de bares.

É um amor assim meio malandro, mas verdadeiro. A gente sabe, a gente sente.
É só não largar as mãos, eu sou o que eles são. E no fim, é tudo o que realmente importa, não?!

sábado, fevereiro 07, 2009

Flores no asfalto ...

Daí que de perto a gente não enxerga direito o todo, fica tudo muito grande e borrado. Acaba conseguindo mesmo é admirar os detalhes, feito bobo, embasbacado com a beleza das pequenas coisas.
Mas olhando pra trás, agora de uma certa distância, dá pra dizer que dois-mil-e-oito foi uma continuação do e-sete. E dificilmente uma seqüência consegue preencher todas as enormes expectativas de um original tão bem sucedido, mesmo sendo também tão querida.

E é aquela coisa toda das seqüências e seus finais surreais de tão bonitos. Oníricos mesmo. Com nostalgia, alegria, lágrimas, e possibilidades. Infinitas novas possibilidades. Não que elas já não estivessem por aí antes. Sempre estiveram. Mas se a gente não tá preparado, nem percebe, nem se arrisca. Então é como se não existissem.

Eu sei que nunca é abrupto, e sim gradativo. Mas eu só costumo me dar conta abruptamente. De repente você tá lá sonolenta atravessando a rua vazia, com o sol nascendo, escutando o Damien, e bate.
Bate que a bagagem tá maior, a Europa tá no coração, as impossibilidades cada vez mais assimiladas. Bate que a casa é outra, o endereço é novo, a rotina mudou completamente. Que tem muito que parece que não encaixa mais, que você anseia por mais, e eu nem consigo mais afirmar se continuo a mesma.

Provavelmente não, a sensação é outra. Talvez só permaneça o que ainda faz sentido. Talvez não importe. Porque dois caminhos divergiam lá na frente, in a wood. And I - I took the one less traveled by. And I’m hoping it’ll make all the diference.

"For what it's worth: it's never too late or, in my case, too early to be whoever you want to be. There's no time limit, stop whenever you want. You can change or stay the same, there are no rules to this thing. We can make the best or the worst of it. I hope you make the best of it. And I hope you see things that startle you. I hope you feel things you never felt before. I hope you meet people with a different point of view. I hope you live a life you're proud of. If you find that you're not, I hope you have the strength to start all over again."

terça-feira, dezembro 09, 2008

Boa sorte ...

Por mais que a gente tente ser ou tente aparentar ser um alguém superior, acaba sendo sim uma espécie de competição cruel. Tácita, sutil, não verbal. Sempre acaba sendo uma situação constrangedora e gerando desconforto.

E não poderia ter sido diferente. Não contigo. Não depois de todos os sonhos, de todas as lágrimas; do teu pé na minha bunda; e da nova namorada não-estúpida, não-baranga, não-totalmente-desprovida-de-senso-de-humor.

Lógico que incomodou de uma maneira estranha. Lógico que deu raiva, ciuminho, e doeu daquele jeito que parece físico. Ver vocês dois ali conversando comigo. Tão cúmplices, com tanta sintonia. Me fez sentir deveras perdedora. Ouvir os planos de vocês pra vida despertou em mim sentimentos não muito bonitos.

E não é que eu me orgulhe do que veio em seguida, na verdade, nem sei explicar como é que começou. Mas foi sim de propósito.
: Os comentários aparentemente desprendidos de cada encontro. Cada olhar ou desvio do mesmo. Cada referência mínima a algo da gente. Os esbarrões despretensiosos e as pequenas provocações. Tudo.

Infantil, patético, eu sei. Mas era uma necessidade.
: A escolha do perfume, do decote ou da saia. O capricho maior na postura e na cruzada de pernas. As melhores tiradas, as frases espirituosas, a melhor primeira impressão que eu era capaz de deixar destinada a cada pessoa do teu novo círculo social a qual eu era apresentada.

E quanto mais eu notava os sinais, quanto mais eu percebia que estava funcionando, menos eu conseguia parar. Era quase que automático. Era mais forte do que eu.
Tinha culpa e arrependimento também, é verdade, mas a vontade era maior. Eu simplesmente tinha que ouvir aquilo, exatamente como foi, da sua boca.
: Que você também lembra. Que também ficou mal. E que a minha presença ainda mexe contigo.

Eu necessitava do telefonema parcialmente ébrio que te deu a coragem pra confessar.
: Os elogios. O quanto você se sente atraído e repara sim em cada detalhe. Que ainda sonha e imagina e me faz de inspiração freqüente pras suas estimulações manuais solitárias.

Não sei se consegui disfarçar o sorriso. Não era maldade não. Era apenas porque você não deve ter noção do quanto para mim foi importante saber.
: Que você me admira e gosta de ficar por perto. Que eu ainda te faço rir. E que de tempos em tempos você pensa se poderia ter sido ou se pode ser diferente.

Então que é isso. Agora eu me dirijo à saída de emergência mais próxima à direita, e faço minha retirada elegante estratégica. Chega. Acabou. Fechou o ciclo.
Era tudo o que eu precisava. Certo ou errado, egoísmo ou não, eu só precisava validar a coisa toda. Eu só precisava saber que também é difícil pra você, entende?

Porque era realmente muito dolorido aceitar que o incômodo, as noites em claro, a química e os pensamentos tantos eram unilaterais, somente coisa da minha cabeça. Não conseguia assimilar como algo que foi tão forte e devastador pudesse ter se transformado em nada pra uma parte que aparentemente esteve tão envolvida quanto eu, e pelo menos durante algum tempo, parecia ter sentido tanto quanto eu.

Porque quando marca forte, sempre fica alguma coisa, não? No mínimo algo bonito pra gente olhar e se lembrar com carinho.
E agora que eu sei que você sabe como é, que eu sei que você também passa pelo o que eu passo, eu fico leve. Com uma sensação de calma, desprendimento e plenitude que surgiu eu nem sei direito de onde. E que pode não ser lá muito nobre, mas substituiu todos os sentimentos nada bonitos de outrora.

Agora posso sinceramente dizer o que eu antes só repetia forçosamente pra ver se eu conseguia finalmente passar a acreditar.
: Que eu lhe desejo um caminho bonito. Que você merece ser feliz. Que vocês merecem ser felizes. Juntos. Sem mim. E que pela primeira vez na vida, isso me deixa bem e me faz feliz também.
'Brigada, babe.

terça-feira, outubro 28, 2008

Hakuna Matata ...

Tem o que lá de longe continua perto e me faz sorrir junto mesmo com sorrisos borrados por megapixels insuficientes e conexões tão intermitentes quanto o nosso nós. Tem o tão perto que é dentro que desperta loucuras, divide desejos, e ajuda a despir não só a mim mesma como a minha vida de toda a responsabilidade e o peso e a complicação tantas vezes desnecessários que eu teimo em colocar sempre.
Tem os dos choppes com conversas noite afora; o que lê cada post e presenteia com chocolate; o que sem saber já me enche de esperanças e de vontades só pelo fato de estar por perto umas horinhas por semana.

Meus meninos outside medicine world me salvam todos os dias. E não devem fazer a menor idéia do quanto. Como bem disse talvez a única que me entenda nesse aspecto:
“Eu não sei andar com meninas, eu não sei freqüentar meninas. As que me rodeiam tem todo o meu amor, mas é apenas com eles que o mundo parece seguro. Feminismo indo pelo ralo, e eu não ligo.”

Eles me salvam nos tempos em que a paciência e a boa vontade com tudo o que é rotineiro anda mínima. Em época de aulas ruins, discussões infindáveis sobre panelas, trajetos lotados e estressantes, campanhas eleitorais tão revoltantes quanto os resultados das eleições. Salvam das amizades esquizofrênicas que mudam de personalidade e discurso de acordo com o interlocutor, da angústia cíclica por causa do M.E., de quando nem mesmo os queridos de todo dia andam conseguindo arrancar risadas e conversas minimamente empolgantes.

Porque tem horas em que é preciso ficar um tempinho longe pra evitar o desgaste excessivo, pra ficar com saudades, e voltar a valorizar. Porque quanto menos tempo falta, mais dá vontade de aproveitar loucamente o que talvez sejam os últimos momentos de viagens, faltas e total irresponsabilidade profissional que me restam. Porque eu de tempos em tempos me canso das pessoas e das rotinas. Canso de mim mesma também.

Eis que então vou me lá. Pro meu cantinho na ZN, Recife, Rio e quem sabe, Paris. Pra distrair, divagar e reencontrar. Pros meus knights in shining armours que sempre trazem o farol alto e o sol nos tempos cinzas de neblina.

E não é nada de mais, é apenas necessário. Faz parte do ciclo a migração. Sabemos todos que eu sempre volto. Com o carinho multiplicado por estes, renovado por aqueles, e com aquela vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom-dia, de beijar o português da padaria.

Circle of life, Simba babes. E é tão bom saber que você tem com quem debandar, que fica até difícil não tentar pela milésima vez acreditar no mantra da problem-free philosophy.

terça-feira, setembro 23, 2008

A-do-le-ta ...

Se a intenção era nos poupar de stress e de conversas delicadas sobre afinidades e desafinidades, eu realmente espero que pros que estão por vir tudo se torne um processo mais tranqüilo, leve e didático. Porque sinceramente eu não agüento mais ter que rediscutir e recolocar à prova meus sentimentos e minha paciência (ou falta de) em relação à dúzia de pessoinhas queridas daquele lugar inóspito.

Não agüento mais gente que não tem opinião sobre as coisas, sabe. Acho que consigo engolir e respeitar muito mais aqueles que discordam diametralmente de mim (mas que se posicionam claramente) do que quem fica a vida inteira em cima do muro e/ou escondendo a opinião (porque não tem o mínimo de coragem de expô-la em prol de uma harmonia totalmente irreal e inexistente). Prefiro mil vezes as coisas honestas e ditas - por mais que machuquem e venham a causar conflito, do que essa calmaria que esconde tudo e simula uma pseudo Paradise City.

E não me sinto nem um pouco mal em assumir que queria sim meus amigos frente ao restante. Porque não vejo sentido em falar de bem coletivo quando a maioria só escolheu participar do experimento visando que ele adivinhasse o já óbvio-subentendido, e somente tirasse de nossas costas o ter de assumir o ônus de nossas escolhas. Acredito que algo maduro e edificante é quando nos ensina a arcar com tudo (de bom e de ruim) nas nossas opções, é quando nos leva a assumir nossas opiniões. E não quando nos dá a possibilidade de dar um “jeitinho” de conseguirmos o que queríamos desde sempre assim na surdina e/ou na malandragem.

Porque em nenhum momento eu senti que houve uma solidariedade para com aqueles que ano após ano acabavam sofrendo e/ou sobrando no decorrer do processo. Assim como não senti que houve solidariedade e preocupação alguma com o bem social quando foi proposto o que foi. Sem terem sido levados em consideração quaisquer sentimentos das pessoas envolvidas na suposta exclusão.

A batata-quente do ter que discutir relação, preterir uns em relação a outros, e apontar dedos nos foi passada forçosamente mais uma vez. E não me sinto uma pessoa pior em ter enxergado no absurdo todo uma chance de conseguir o ideal que parecia cada vez mais utópico. Porque, pra mim, com eles e pra ficar com eles sempre vale a pena, sabe.

Porque eles não me acham vândala nem sugeriram que eu fosse presa por pintar um porão.
Eles não necessariamente compartilham das minhas idéias e ideais, mas não me rejeitam e olham torto por causa disso. Eles chegaram a cogitar abrir mão do que era o ideal-utópico em prol de pessoas que abertamente nos rejeitam.

E é com eles que eu bebo cerveja e falo de coisas sérias a maldades e obscenidades. É com eles que eu, mesmo morrendo de sono, prefiro ficar passando meu tempo fofocando ao invés de dormir nas horas de almoço. São eles que ainda me convencem a comparecer aos programas mais miados e às viagens mais furadas.

É com eles que eu também queria ir pra Fernando de Noronha no internato. É deles que eu sinto saudades toda vez que a gente não se vê por mais de uma semana. E é por causa deles que dá um apertinho no coração ao pensar que mais da metade já foi e que há chances dos próximos dois anos nem serem.

Talvez tenha sido o último momento na vida onde ainda houve a possibilidade de se fazer esse tipo de escolha em relação à convivência e ao ambiente de trabalho. E é por todas essas coisas que eu não consigo me livrar das sensações de frustração e de que uma oportunidade de ouro escorreu pelas mãos. Por qualquer motivo que, pelo menos até o momento, eu não consigo achar que venha a valer a pena.


segunda-feira, setembro 01, 2008

Is all you need ...

Esteve comigo em alguns dos melhores e piores momentos deste biênio. Presenciou o que talvez tenham sido meus maiores sorrisos, meus abraços mais apertados, meus beijos mais intensos.

E lá estava mais uma vez, cúmplice silencioso do olhar perdido na janela, do aceno tímido e carinhoso quando da decolagem querida, das lágrimas pretas que teimam em escancarar através dos borrões o quanto de mim mesma acaba extravasando - porque fica grande demais pra continuar aqui dentro.
Deve ter sorrido com o déjà vu e pensado – olha lá ela de novo.

Será que ele sabe que a habitué de agora é a mesma garotinha que antes carregava a mochilinha pelos mesmos corredores e já olhava encantada pras pessoas, e lojas, e lugares? E achava que queria ser aeromoça, porque a sensação que ela sentia naquele lugar, com ele, era sempre muito especial. Como se já pressentisse que talvez estivesse destinada a passar por tanta coisa bonita por ali. E a caminho dali.

Será que quando ele me vê ele enxerga tudo?
Não só os olhos brilhando e o coração palpitando da chegada, a Pizza Hut da espera, o chiclete e as revistas do embarque. Mas as promessas e confissões impulsivas, os “te amo” e ”se cuida” mais sentidos e verdadeiros que já disse na vida, a sensação de “to be continued”.

Porque, cá entre nós, eu já me sinto completamente íntima. Nada de formalidades e não-me-toques. Nada de nomes completos ou oficiais. É logo ali, é Cumbica, é de novo. É parte da minha história e do que me é mais caro.
Por todo. Pelos meninos de minha vida seguindo seus caminhos europeus, pela minha Babylon, pelas promessas e confissões impulsivas, pelos “te amo" e “se cuida” ... pelas lágrimas e pedacinhos de mim que ficam por lá a cada despedida, mas principalmente, por tudo o que eu ganho – e que me ganha – a cada revisita ao tão companheiro terminal de desembarque.

domingo, agosto 24, 2008

Why so serious?

Tempos malucos esses últimos. E eu não sei se é pela velocidade com que as coisas andam acontecendo e desacontecendo dentro e fora de mim, ou se é a sensação de efemeridade contida nas pilastras de pessoinhas queridas perigando desabar que a gente anda procurando ajudar a segurar.
O fato é que eu me sinto num vagão de trem-bala que abre as portas e me larga em algum lugar desconhecido por um tempo, me obriga a lidar com situações inesperadas e peculiares, para depois vir me buscar e me deixar em algum outro canto com uma outra nova realidade. Tudo isso em intervalos extremamente rápidos e de maneira sucessiva.

Talvez pela impossibilidade de elucubrar muito a respeito e assimilar por completo os flashs de situações e emoções, talvez porque tem horas em que é preciso agir duas vezes antes de pensar, eis que chega a ser surpreendente o quanto minha sanidade mental e espiritual vem sendo mantida nesse processo todo. E com que facilidade ela aparentemente vem sendo mantida.

O engraçado é que eu fico esperando a hora do baque, sabe. Quando eu vou sentir o cansaço e o peso.
Porque mudanças sucessivas de realidade, tomadas rápidas de decisões importantes, despedidas por tempos indeterminados, e um prospecto de incertezas mil, é tudo o que existe de mais difícil pra mim na vida. É tudo aquilo com o que eu mais tenho dificuldade de lidar.
E sempre me baqueia. Nem sempre é nocaute, mas sempre me derruba por alguns instantes.

E é um misto de satisfação tímida por cogitar estar conseguindo quebrar tabus, com incompreensão por não haver a menor lógica em toda a cadeia de eventos recentes. Em todos os sentidos. Eu nem tento mais adivinhar muito. Já sei que vai ser algo totalmente inesperado e bizarro. Nem sempre ruim, às vezes muito pelo contrário. Mas totalmente inesperado.

E quem sabe a gente não precise de bizarrices e de alguém que destrua toda a ordem vigente de preceitos para podermos enxergar realmente, aprender e evoluir? Quem sabe já não esteja na hora de escancarar e tirar debaixo do tapete o que a gente esconde, e teme, e não gosta de assumir que existe e que nos comanda de alguma forma? Quem sabe a loucura e até um pouco de sadismo não sejam o empurrãozinho que esteja faltando pr'aquela revolução pessoal pela qual você tanto anseia?

Tudo que sei é que estou completamente fora da minha zona usual de conforto. Está tudo completamente diferente do que eu sempre achei que precisasse e desejasse pra ser feliz. E quer saber? It’s not that bad. At all.
Go figure.
Or not.

"You know, I just do things. The mob has plans, the cops have plans, Gordon's got plans. You know, they're schemers. Schemers trying to control their worlds.
I'm not a schemer. I try to show the schemers how pathetic their attempts to control things really are.
You know what I noticed? Nobody panics when things go according to plan. Even if the plan is horrifying.
Now introduce a little anarchy, upset the established order, and everything becomes chaos.
I'm an agent of chaos. And you know the thing about chaos? It's fair.
See, I'm not a monster. I'm just ahead of the curve."

domingo, julho 27, 2008

Tchutchucas, uni-vos ...

Me chama de cachorra que eu faço au-au. Agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar. Vai, popozuda, rebolando até o chão.
Ultraje à mulher? Cúmulo do machismo? Meros objetos sexuais? Degradação? Não se dão ao respeito?

Bonitinho mesmo é o nosso discurso de jovens auto-declaradas feministas proclamando o ódio e a revolta contra todo esse tipo de atitude e manifestação. Mas às vezes é preciso ir além da repetição da cartilha fofa e clichê de militante, senão a gente acaba sendo é hipócrita e apenas contribuindo pros estereótipos e preconceitos permanecerem.

Porque, numa boa? Eu defendo piamente o direito da mulher ser de Amélia a totalmente emancipada, de pudica a libertina, de mãe de seis filhos a solteira convicta, de objeto sexual a cachorrona, até mesmo Amélia e putona e objeto sexual em fases sucessivas, inclusive ao mesmo tempo se assim ela bem entender.

A questão pra mim surge quando esse estigma sexual feminino acaba sendo o único e primordial, quando é imposto, ou quando é ele que termina por ditar a forma como se dão as conquistas e as relações sociais e de poder na sociedade.
E vamos combinar que nós mulheres temos um papel mais que fundamental em contribuir para ou impedir que tais bizarrices continuem acontecendo. Efetivamente mais do que meras músicas com letras consideradas machistas que causam tanto furor e frisson.

Quem não se dá ao respeito: a mãe de dois filhos que trabalha durante o dia e à noite vai ao baile funk cachorrona dançar libidinosamente, ou a executiva impecavelmente vestida que aceita as investidas do chefe pra alavancar uma promoção?
Qual a definição de degradação: a mulher que vai até ao chão e quando está com vontade de transar, simplesmente assume, vai lá e trepa com quem interessar; ou a moralista educada que aceita calada ganhar significantemente menos que seu colega homem de trabalho para exercer exatamente a mesma função?

Não vejo o menor problema em dançar/agir/cantar/gostar-de-ser-vista como gostosa/popozuda, desde que isso não seja tudo. Desde que não permita que tal parcela de sua personalidade seja utilizada ora como forma de dominação e humilhação perpetuando as desigualdades, ora para proveito pessoal em cima dos estereótipos que tanto abominamos e lutamos contra.
No fim das contas é tudo uma ideologia de acreditar numa igualdade de direitos e numa liberdade de comportamento e atuações. É aceitar, declarar e assumir todas as diversas/possíveis facetas e vontades do pertencer ao sexo feminino.
Não necessariamente define negativamente teu caráter e anula tuas convicções, sabe. Muito pelo contrário.

Não é trancar-se numa redoma de puritanismo e politicamente correto pra assim galgar espaço e respeito. É poder dançar que é tua potranca e dar risada da letra e etc. e tal, mas ter a liberdade de só agir assim se ela quiser, quando ela quiser, e com quem ela quiser. É poder falar da mesma forma dos homens se ela sentir vontade. Ou não gostar mesmo de nada disso e poder ficar na sua.

Cantar que um tapinha não dói e curtir um durante momentos íntimos não é a mesma coisa que incitar e apoiar a violência contra a mulher. Usar roupas mínimas e provocantes não é pedir pra ser estuprada. Da mesma forma que se comportar e se vestir como uma lady não é sinônimo de inteligência, respeitabilidade e verdadeira feminilidade. Isso sim ainda é machismo fundamentalista besta, percebe?

Mulher vai continuar sendo tachada de submissa, burra, incapacitada e mero objeto de prazer inúmeras vezes durante a vida. Ser mulher hoje em dia é ainda ter que sucessivamente provar inteligência, capacidade, competência e força nas diversas instâncias. E sinceramente, aquelas admiráveis que provam isso provam cantando Pagu ou o Créu, de calça comprida ou de sainha, na faculdade de humanas ou no morro.

Você pode muito bem não concordar com tal e tal comportamento e estilo de vida de pessoas. O que incomoda é quando o julgamento tem pesos e medidas diferentes para homem e para mulher.
Eu mesma não prego respeito cego e admiração por todos os estilos de vida – tenho meus juízos de valores bem fortes em relação às pessoas. Mas concordo com a liberdade de escolha pelos vários jeitos de ser, sem a pressão de se ter que assumir um papel imposto historicamente ou “militantemente”.

É você poder ser mãe de família, casada com o trabalho, esposa perfeita, ou não saber nem sabe fritar um ovo. É escolher ser religiosa monogâmica, atéia com vários parceiros, princesinha, inclusive falar palavrão e ir ao baile sem calcinha quando bem entender.
É lidar com suas decisões e com as conseqüências advindas delas como qualquer outro ser humano, independente de você ter nascido XX ou XY.
E é por essa liberdade e contra esse pré-julgamento estrito de gênero que lutamos todas, não?

terça-feira, julho 08, 2008

To Sir, with love ...

Gênios, pra mim, acabam sendo incompreendidos e/ou admirados. Normalmente muito tempo incompreendidos pra, depois de falecidos, admirados. E me parecem sempre distantes, semi-deuses, não se misturando com os mortais, vivendo num Olimpo particular.

Mas tinha um instantaneamente admirável que se misturava, que vivia, que bebia, que adorava uma sacanagenzinha básica, que tinha o senso de humor mais inteligente e afiado que eu já ouvi.
Era ateu graças a Deus, dava bom dia aos mal criados, desafiava as aluninhas a provocá-lo depois das onze da noite, questionava sempre a nossa inteligência, declamava como ninguém.

Eram os cinqüenta minutos que mudavam tua vida, você nunca saía igual. Sempre pensava, sentia, descobria ou criticava algo que antes não fazia.
Foi o sopro de poesia, filosofia e beleza durante os anos de cursinho de aulas bitolantes.

Ele não queria ir pro céu. Então tenho certeza que seu pedido foi atendido e está no boteco da esquina do inferno cercado de diabinhas. Filosofando, bebendo e falando besteira com seus ídolos e ex-aluninhos do Objetivo.

Aluninhos estes que somos infinitamente agradecidos por ter convivido um tantinho com essa figura tão talentosa, inspiradora e querida.
O melhor professor que eu já tive na vida. De longe.
Sentimos todos, FT. Vais deixar uma saudade teixeiral.

“The mediocre teacher tells. The good teacher explains. The superior teacher demonstrates. The great teacher inspires.”

terça-feira, julho 01, 2008

Eu quero uma pra viver ...

Era pra falar de machismo e feminismo. Não dos casos extremos e escancarados como mutilações genitais ou como a manchete que eu li dias atrás e salvei o link porque deu revolta. Mas sim daqueles velados do dia-a-dia, que a gente ouve de homem e mulher, desconhecidos e familiares, e até repete, e ri, e faz sem sequer perceber direito o que significa. Porque tá tão enraizado nos nossos costumes e em nossa história que vem quase que naturalmente, na inércia.

Era pra falar das eleições do Zimbábue. Do quanto ainda me custa acreditar que é de verdade e atual, e não um documentário antigo de mais um daqueles absurdos difíceis de se engolir que a gente aprende assim an passant nas aulas de História e Geografia do colégio. Porque se eu aprendi a sucessivamente ignorar que todo dia acontecem barbaridades análogas e desrespeito total a liberdades aqui no meu próprio bairro e lá na cidade que eu clamo por ser minha Pasárgada, por que não faria o mesmo com um continente tão marginalizado de atenções midiáticas e sociais efetivas?!

Era pra falar do filme antiguinho-clichê-de-movimento-estudantil que eu fui adiando de assistir por causa da minha birra besta com coisas unânimes e da modinha e que, apesar dos vieses, foi um puta d’um tapa na cara. Porque quando destrincham em tela grande a perversidade e a injustiça dessa lógica de sistema e de sociedade elevada à última potência, não há hipocrisia e apatia que se sobreponham ao mal-estar brutal pós-sessão.

Era pra falar de tudo isso, mas eu vou acabar como sempre sendo umbiguista e falando de mim. Da minha crise já antiga de não saber exatamente como diabos contribuir pra que tudo isso se extinga, ou ao menos comece a retroceder.
Eu, que sempre olhei nada deslumbrada pras meninas bonitas e gracinhas da minha turma que vão ao orfanato todo ano doar brinquedos e brincar com as criancinhas, porque gostam e até deve dar uma sensação de “tô fazendo a minha parte”. Mas de que adianta, se em todas as outras escolhas da vida elas decidem contribuir pra que as diferenças só aumentem?

De que realmente adianta ficar discutindo sem propósito e sem educação em lista virtual ou em eleição de diretório acadêmico, enquanto os atores sociais à volta só se afastam e se alienam cada vez mais frente a isso?
De que adianta ter todo um acúmulo e uma oratória invejáveis quando só utilizados pra falar bonitinho em reuniões e assembléias e aumentar a lista de atividades do currículo pessoal?
De que adianta ficar criticando assim e clamar estar “do outro lado da trincheira” quando, na prática, você não faz nada pra que um milésimo dessa situação que tanto te incomoda se modifique?

Eu, que não vou todo ano a orfanatos. Que não mando e-mails mil pra listas. Que não tenho nem acúmulo muito menos oratória decentes. Que tenho certo que não vou seguir carreira política nem escolher cargos cuja função principal acabe entremeada de aparições públicas e discursos. Que ainda não sei precisar qual rumo profissional irei tomar.

Mas que sei que mexe e desassossega toda vez que dou de frente com as diversas realidades, e dura mais do que aqueles momentinhos breves pós reportagem/filme/percurso de volta pra casa/fórum.
Também sei que ameniza um pouco toda vez que eu voto em quem acredito, que participo de algo que luta pelo que acho justo, que digo não a opções que só corroboram com a continuidade do que incomoda, que elucubro sobre como atuar como médica daqui a uns anos e como cidadã.

Porque tem gente que foi feita pra holofotes, pra atenções e reconhecimento, pra macro, pra gerir. Eu gosto é de bastidores, do trabalho de formiguinha do dia-a-dia, do planejar e executar, de resultados na minha localidade.

Só que ainda não é o suficiente, percebe? Não acalma por completo, não satisfaz cem por cento. Mas por enquanto é o que eu vejo como factível, o resto continua é tirando o sono de tempos em tempos.
Se bem que essa inquietude até tem um lado bom. A insatisfação não deixa a gente na inércia, pelo menos não por muito tempo. Porque a última coisa que eu quero é me tornar aquela garota que ia mudar o mundo, e agora assiste a tudo em cima do muro...