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sexta-feira, outubro 01, 2010

Caiu na rede é peixe lê-lê-á ...


Quebrou.
O encanto. A paixão. A capacidade de se alegrar e sofrer absurdos durante 90 minutos mais acréscimos. A Shibo. Os puta-que-pariu-que-golaço. O soluçar e ligar pro pai pra falar que porra-é-nosso. A vontade de vestir a camisa e defender o futebol-"moleque".

Nunca foi um arrependimento, sabe. Essa escolha de garotinha de cinco anos que se espelhava no pai. Nunca me incomodei em viver de história. Sempre foi uma relação onde não era acostumada a vencer, e tudo bem.


Relevei pseudo-ídolos como Giovani-Robinho-Diego. Engoli goleiros como Edinho. Doía mas eu perdoava cada vez que a coisa apertava e (re)contratavam o babaca do Luxemburgo.

E tudo parecia valer a pena .
Foram vinte-e-cinco anos de títulos e apresentações não relevantes extravasados em alguns meses de glórias. Foi um sentimento verdadeiro de admiração e torcida, dos que tinham o quê de irracional de tudo o que é muito intenso.

Até que passou do limite.

Eu te amo, babe. Mas mulher de malandro eu não nasci pra ser.
Então não dá pra assistir vocês escolherem um imbecil-com-fraldas-e-moicano frente ao meu-técnico-favorito-do-mundo. Não dá pra aceitar imaturidade-falta-de-respeito-e-ganância expulsarem um dos caras mais queridos-competentes-e-íntegros do futebol brasileiro atual. E fazer desse tipo de comportamento algo pra se idolatrar. E premiar com homenagem pelos cem jogos.

Então eu parei por aqui. Não engulo. Não visto mais a camisa.

Quero que faça ainda mais feio no Brasileiro de agora e na Libertadores do ano que vem. 'Bora perder do Corinthians time and time again. Tomara que o Ganso vá parar em algum time  que o ajude a ser o próximo-melhor-jogador-do-mundo num ambiente menos hipócrita e mercenário.

E o que mais me entristece é perceber que a torcida (?) acha que tudo bem. Que ela não foi gritar lá na frente da Vila que Dorival, você é mais Santos que todos esses caras aí. Que continue lotando estádios. Que não inverta as faixas e fique de costas. Que não esteja fazendo toda uma pressão pra venderem o reizinho.


Porque tem coisa muito mais importante que pontos na tabela e dinheiro com patrocínio. É mister chacoalhar quem a gente gosta quando pisam na bola. E acordar mudanças. As tais das concessões mútuas em prol de continuar funcionando junto.

Mas a gente tem de saber se afastar quando não há negociação, ou quando limites alheios vão de encontro ao que você acredita.
Mesmo que te destrua por dentro. Mesmo que você ainda chore por silêncios.

Talvez eu não tenha mais o Santos. Espero que não pra sempre.

Que bom que ainda tenho o futebol.
Dorival, você é o meu Zico.

domingo, agosto 29, 2010

domingo, março 21, 2010

Wild things ...



- He loves you.

- But he complicates things so much.

- You're his family.

- Family is hard.


Family is hard. Relationships are messy. E andamos todos por aí, escondidos debaixo do nosso capuz com orelhas, pretending. Pretending to be a wolf, pretending to be a king, pretending everything's okay.

Tendo como companheira fiel a maior imaginação do mundo. Aquela, lapidada após tardes e tardes solitárias, em meio a discos-livros-computadores, falando sozinhos. 
Observando a vida meio à margem, num eterno sentimento de não pertencer. De não "encaixar" nos grupinhos da maioria das outras crianças, adolescentes, adultos, monstros. 
Tentando entender como diabos viemos parar num lugar onde todos idolatram a sabedoria e a perspicácia de corujas, quando tudo o que elas dizem nos soa extremamente estúpido e sem sentido.

Eis que há a tal da imaginação, o mundo (re)inventado. Mundo onde somos reis, com as mulheres e os amigos que gostaríamos na cama e pilhas de criaturas que bem escolhemos. O que demora um tanto pra assimilar é que ainda que tentativa de fuga louvável, ainda que se construa um forte where only the things you want to happen would happen, continua não sendo o suficiente to keep out all the sadness.

Porque nós, nós sabemos que uma hora o sol vai morrer e tudo vai ficar escuro. Sabemos que mais cedo ou mais tarde o que é rocha vira sim sempre poeira. Que nem coroa nem tamanho nos fazem menos insignificantes e impotentes frente ao curso do universo. Nós, nós entendemos o que é acordar um dia e perceber que well, you don't have any teeth anymore.

É uma vida toda na selva. Sem saber ao certo se jogamos no time dos bad guys ou good guys. Com buracos ora intencionalmente abertos, ora arduamente - por vezes, inutilmente - remendados. Mordendo, e arrancando pedaços, exatamente (d)aqueles que mais amamos.

E por mais que a gente entenda que somos downers. Por mais que a gente tenha aquela resignação de quem sabe que nasceu pra caminhar sozinho. Vezenquando cruzamos com outros estranhos durante a travessia. 
E o mais difícil é perceber que eles também são ordinary, que não são responsáveis por resolver all the mess that we cannot, e que não, não podemos engolí-los por isso. Custa entender que happiness isn't always the best way to be happy em qualquer um dos mundos que a gente resolva estar e criar.

Porque sim, em qualquer um deles family is hard, relationships are messy, and we are always pretending. Mas há pratos quentinhos nos esperando com abraços ainda doloridos pelas marcas de mordida. Há despertares conjuntos ao som de Al Green. Há despedidas cúmplices ao zarpar apenas com um olhar. Há trilhas que ainda que com eucaliptos valem a vista. Há ressonância tão grande que dá vontade de engolir.

Eu disse que não tinha mais idade pra filme de criança.
Ele disse que não tem mais idade pra textos clichês.
Vai ver nem eu.
Mas quer saber? Inside all of us still is.

terça-feira, março 02, 2010

He wanted a sudden death ...


Surgiu ali na esquina um tanto zonzo, cambaleando pela calçada. Passos lentos, curtos, como se estivesse pesado prosseguir. 
Apoiou-se por um instante no portão. Respirou vagarosa e profundamente. Como que pra tentar recuperar o equilíbrio, e talvez a direção. E sentido(s), recupera?
Se houvesse mais carros no estacionamento deserto não teria encontrado o seu. Não em meio a tudo. Tsunamis e terremotos. Ali, dentro, de si.

Procurou pela chave nos bolsos. Da frente, de trás. Maldita memória. Andava perdendo tudo. Esquecendo tudo. Antes não era assim. 
Tinha dito ao médico. Não pode ser normal um troço desses, doutor. Não tenho idade praquela demência dos velhos. Como era mesmo o nome? Porra, nem do nome da doença se lembrava mais.
Foi quando se deu conta de que tinha deixado a chave dentro do carro, aberto. Óbvio. Estacionamento. 
Riu da própria estupidez. Num misto de aceitação e auto-comiseração.

Já sentado do lado de dentro, fitava a meia dúzia de folhas sulfite. Que vinha carregando consigo desde que saiu do consultório. Com o cuidado e a aflição de quem carrega ali algo tão frágil quanto importante. 
Alguns dos números já um tanto borrados. Mezzo lágrimas, mezzo suor. 
Fitava e re-fitava cada um daqueles valores, os quais já sabia praticamente de cor.

Na esperança de ter deixado algo passar, de encontrar algum engano. Porque só poderia ter ocorrido algum engano. Enganos acontecem. Qualquer um está sujeito a se enganar. O laboratório, o doutor.
Que outra pessoa poderia entender mais de si do que ele próprio? Décadas e décadas de convivência. 

Algumas consultas, algumas amostras de sangue, isso sim tem margem de erro. 
Mas ele? Ele não. Ele sentia. E sabia que havia ali, naquelas consultas, naqueles valores, nas palavras do doutor de minutos atrás, algo de muito errado.

Procurou por um cigarro. Maço vazio. Excelente. Nem de repor cigarros se lembrava mais. 
Olhos marejando. Aquela maldita lágrima que teima em escorrer mesmo contra todas as vontades. Além de desmemoriado agora deu pra ficar emotivo.
Ela ficaria surpresa em presenciar um momento ridículo desses, de emoções transbordando.
Riu mais uma vez de si mesmo. Dessa vez com um ar de deboche.

E agora, o quê? O que a pessoa faz com isso. Com toda essa nova informação.
Já tinha tudo programado. Todos os planos, todos os próximos passos.
A viagem, o apartamento, a conversa com ela. Sim, a conversa com ela. Nada mais de caixa-postal, nem do imbecil com as mãos ao redor daquela cinturinha. Que porra, continuava praticamente a mesma da época da faculdade. 
E com os caras do escritório, com o chefe, tudo resolvido. 
A família então, finalmente iria ouvir do velho aquilo que ele foi incapaz de dizer durante todos esses anos.

Só ficava triste pelo menino. Imaginava ele sem ter pra quem mandar um cartão no dia dos pais, sem alguém pra famosa conversa da camisinha, sem o alguém que apagava os sites de pornografia no histórico do mozilla pra chatice do mas-fernando-ele-ainda-é-muito-novo sequer chegar aos ouvidos dele.
Grande garoto. Talvez a única coisa que tenha saído certa. Merece a lembrança etérea de um pai perdedor, e não a presença real dele por perto. 

Porque na lembrança reinventa-se, reescreve-se. Com certeza o fracasso em pessoa iria ser amenizado e substituído por características muito mais dignas. Bendita saudade. Santo esquecimento que preenche lacunas da maneira que mais lhe convém.

Mas o doutor então chega e diz que os exames mostraram resultados inacreditáveis. Que o que parecia um câncer incurável na verdade era um tumor passível de cura. Uma cirurgia simples e pronto. Cara de sorte, ele disse. A chance de ser algo assim tão benigno era menor do que dez por cento.

Sorte? Ele sequer tem idéia do que dissera. Com aquele sorriso irritante no rosto, de quem traz as boas-novas. Até pra isso um perdedor. Noventa por cento de chance de vencer, e pronto, derrota. 
Fechou a porta o parabenizando com um aperto de mão e um até logo.  Provavelmente imaginando que o choro era de alegria. Mas é óbvio. Vencedores não reconhecem um choro de derrota mesmo quando escancarados na sua frente.

E agora. Diz. Estava tudo certo. Esquematizado. Seria digno, uma fatalidade. A doença, e não uma desistência. Porque nem desistir conseguia. Nem pra selecionar o próprio game over. Mesmo quando há tempos apenas agonizando a espera do golpe final. 
Patético. 
I know, Nina, I know. Either way I lose. I fucking lose.

Riso novamente. De cansaço, de descrença, de vergonha.
De desistência.

...

"Talvez por não conseguir morrer aos bocadinhos como toda a gente - processo a que toda a gente dá outro nome - , morreu antes do tempo ao longo de meia dúzia de segundos mal contados. 
Morre-se sempre em vida, mas há quem insista em ir à frente deixando tudo para trás. 
A verdade é que isto não é sobre ela, mas sobre todos os que nos impedem a despedida. 
E uma despedida não é um aceno, é um momento de crua consciência. 
A dois. 
Ainda que as costas se voltem, ainda que a matemática nos imponha uma subtracção irreversível."

sábado, julho 25, 2009

#Maisumbitchyday ...


Então que eu tô há horas lendo posts, comentários, e tuítes dos dois lados (porque avacalhou pra polarização e lados "inimigos") sobre a polêmica toda do #lingerieday. E a sensação que domina é a de profunda tristeza. Mesmo. De ficar com vontade de chorar.
Porque parece que no fim, por mais brilhantes e inteligentes que as pessoas sejam, o debate sempre acaba descambando pra rixinhas pessoais.

Uma campanha de merda, idealizada por cérebros de merda, consegue fazer gente fantástica ficar de birrinha, desqualificando uns ao outros com ofensas de quinta-série. Gente fantástica em lados opostos de trincheiras, discutindo qual feminismo é o mais bacana, o nosso ou o de vocês. Sério. Me dá tanto enjôo e raiva (e tristeza) quanto as piadas sobre falta de pinto dos toscos no hospital. Talvez mais.

Se de um lado - talvez no calor da revolta e da discussão - acabaram desqualificando a escolha de quem participou com alguns argumentos nada sutis e de cunho pessoal. De outro lado, o que eu acho mais complicado nisso tudo é malandramente mudar todo o foco da discussão. Na boa, eu não vou saber citar um terço dos teóricos todos que elas citam (ultimamente, sadly, só ando lendo Caio e medicina), nem tenho o dom de destrinchar e me expressar tão bem quanto elas, mas já foi mais do que o suficiente pra entender que a questão pra polêmica toda foi a erotização feminina NAQUELE contexto. Não a erotização e sexualidade per se como formas de liberdade e empoderamento. Simples assim. Então pra que mudar todo o foco? Por que, hein? Tão triste, tão desnecessário, cansa tanto.

Além do mais, eu juro que não entendo qual o problema de errar na análise de vez em quando. Ora, não somos perfeitos. E o fato de às vezes (ou uma única vez, sei lá) eu acabar tomando uma atitude que, na hora me pareceu extremamente acertada e condizente com o que eu acredito; e mais tarde, perceber que acabou tendo uma repercussão que well, não era bem o que eu queria. Acontece, porra. Não desqualifica quem eu sempre fui, tudo o que sempre pensei e defendi, e todos os meus princípios. A gente levanta, assimila, e bola pra frente, cazzo.

E é tão comum, sabe. Errar tentando acertar. Inconscientemente. Difícil ter de pensar sempre em todas as repercussões e consequências de um ato meu em dada situação. Tem horas em que a gente não enxerga mesmo todas as variáveis e todo o contexto. Ou enxerga e enxerga borrado. Quantas vezes, mulheres/negros/homossexuais/insira-aqui-a-classe-que-tu-preferir, fomos objetificados ou colocados em situação de vulnerabilidade sem percebemos? Muitas vezes com o nosso aval, mas sem nos apercebemos disso. E na hora, em nenhum momento nos sentimos objeto, menos, nada disso. Mas olhando depois, fica claro que fomos. Porque tem coisa que tá tão arraigada, tão no dia-a-dia, que às vezes a gente demora pra notar, principalmente quando de dentro. Ou só nota mesmo depois das consequências. Isso me diminui pro resto da vida? Me faz menos inteligente, perspicaz, militante, respeitável, e a porra toda? Acredito que não. Muito pelo contrário.

Porque se pra mim indivíduo, tal ato meu isolado tenha tido um significado X, esse mesmo ato, quando colocado fora do vácuo, pode mudar de significado, assim no macro, sabe. De um jeito que eu não pretendia, que inclusive era o oposto do que eu imaginava, mas que ocorreu, não dá pra ignorar. E mais uma vez, isso não me diminui pro resto da vida. Não tira todos os meus ideais, qualidades, feitos, propósitos. Me deixa mais atento, experiente, e capacitado pra todas as próximas análises e obstáculos.

Mas é difícil fazer mea culpa, né. Mais fácil - e muito mais nocivo - é utilizar da nossa facilidade com palavras e argumentações e distorcer todo o foco. E ficar recebendo aplausos dos toscos de plantão. E estreitando laços com cérebros de merda. E a discussão, que foi o mais fantástico de tudo nessa campanha de merda, se perde em clubinhos e gente que fica-de-mal. E as pessoas brilhantes rompidas por aí, discutindo se o meu ou o dela tá mais certo. Quando na verdade, era tudo o nosso.
Cansa, viu. E chateia.

quinta-feira, junho 25, 2009

Girl talk ...

Daí que hoje em dia elas se vestem um pouco diferente de meados dos noventa, de como quando era com ela. Os hábitos e a linguagem também mudaram um tanto.

Mas muito permanece. O objetivo de aparentar anos a mais. Aquela coisa do parecer despojada.

Hoje tem mais maquiagem, os óculos-intelectuais-de-aro-grosso, o All Star xadrez, o jeans justo com as camisetas.

Mas continua o querer emanar subversão, o querer destoar, a ânsia do ser diferente.

Tentando disfarçar as inúmeras trocas de roupa em frente ao espelho até chegar na escolhida. E o desejo urgentíssimo de pertencer, de experimentar, de se expressar e ser notada.


E elas estavam lá. Num grupo enorme. Posando pra fotos em todo e qualquer cenário minimamente diferente do shopping. A tecnologia agora tá aí, em todos os lugares, nas mãos de todo mundo. Na época dela não tiravam tantas fotos, só em ocasiões especiais. Agora as câmeras estão acopladas a tudo, documentando passeios com caras-e-bocas e gargalhadas desprendidas, daquelas que só adolescentes conseguem ter. Quem disse que não era uma ocasião especial? Era sim. Nessa idade sempre é.


Pelo jeito, o orkut hoje vai bombar de atualizações de fotos – disse pra ele, depois de cruzarem pela terceira ou quarta vez com as meninas pelos corredores. Chamou sua atenção uma específica. Loirinha, camiseta do Nirvana, olhar de alguém que parecia entender muito mais do que dezessete anos de vida. Fitaram-se por alguns instantes, e então cada uma continuou seguindo seu caminho.


Mais tarde, um quinto encontro inesperado. Reconheceu o Kurt Cobain refletido através do espelho. Soluçando, lágrimas pretas, tentando inutilmente enxugar o rosto que parecia nunca secar.


- Queria pular logo pra parte em que a gente encontra o cara certo pra passear de mão dada. E pára de discutir e chorar em banheiros públicos.

- Se quiseres, a gente troca. Aí tu é quem fica com o posto de pior ser do universo. Porque tem o gracinha pra andar de mão dada, enquanto silenciosamente sente é falta de quando te fazem sentir o suficiente pra poder discutir com eles. E sonhar o suficiente pra poder chorar por eles.


Parou por um instante, assoou o nariz, e disse bem séria.


- A gente, mulher, nunca vai ficar satisfeita, né?

- A gente, humano, acho que não.


Mais um silêncio, ambas com faces pensativas, longe dali, como se processando aquilo tudo.


- Mas sabe, moça, não quero chegar na parte em que a gente pára de acreditar que é possível.

- Eu também não, menina. Eu também não.


E então elas sorriram – daquele jeito desprendido e delicado que só sonhadoras conseguem fazer, e voltaram pra flashes e braços seguros.



"Il y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente."

terça-feira, junho 16, 2009

A Sunday smile ...

- Vortô pra ficá, né?
- Não, achu qui minha sina é sempri caminhá.
- Tu carece é di criá raiz, minina.
- Num fala assim. Eu sintu qui andei, andei, andei, e num cheguei a lurgá ninhum. Sintu qui um tantu di coisa eu perdi e um tantu di coisa eu num cunsigui achá. Vivê é assim mermo? Essa coisa doida qui muda sempri? A separação di quem a gente qué? Andança sem pará? Pareci tudu sonhu. Vivê é isso? E o amô, quandu é di verdadi? E filicidade, quandu é di verdadi?
- Ói, a filicidade é o contrai do amô, né? A filicidade...
- I na vida, o qui vem dipois da morte?
- Num sei. A gente só sabi preguntá, num sabi rispondê não.
- Achu qui meu distino é sempre fazê u caminhu di vorta. Adeus!
- Mas será pussivi, minina, qui nossa sina seja sempri si dispidi?
- É não! Nossa sina é sempri si incontrá.

(Hoje é dia de Maria(na).)


"Teve certeza - ou claras suspeitas - que talvez não houvesse lesões, no sentido de perder. Mas acúmulos, no sentido de somar. Sim, sim. Transmutações, e não perdas irreparáveis. Substituições oportunas, como se fossem mágicas.
Sofre horrores, mas continua do bem, sempre inventando histórias com final feliz."

domingo, maio 17, 2009

Exit text (for a routine) ...

É a notícia de que lhe restam meses de vida. A tentativa de suicídio que te desfigura totalmente. O acidente nas férias que deixa sequelas para sempre.

É você o motorista embriagado na colisão que matou teu melhor amigo. Ela achando que viver não vale mais a pena bem ali no meio da sala, e ninguém nota. Duas das pessoinhas mais queridas destruindo uma amizade de anos, e não há nada que possa ser feito para impedir.

É a angústia acumulada de meses. Pilhas e pilhas acumulando. De vontades, dúvidas, cansaço, lágrimas e pensamentos. Em dias cada vez mais longos.
Não adianta dizer que vai ficar tudo bem. Porque agora não resolve. Por mais que seja verdade, isso agora não conforta.
A sensação de impotência faz tudo parecer maior e mais devastador. O metro e meio nunca foi tão pouco, a cama nunca foi tão grande.

Às vezes tudo o que a gente quer é uma xícara bem quente de capuccino com nicotina ao fim do dia. Junto a um alguém que sussurre uma canção bonita e fique por perto até conseguirmos dormir.
Mesmo que seja fantasia, mesmo que seja em sonho. Porque nele eu te sequestro e a gente escapa.

Respira fundo, devagar, deixando a fumaça escapar aos poucos.
Sem desistir, babe. Eu não conseguiria sozinha.
Continua com a canção que aquece. Mais um gole. Agora sente o aroma e fecha os olhos.
Um só, vê? Somos um só. Finalmente em paz.
Quanto ao resto? Tomara que sufoquem.

Ah sim, eu sei, linda a casa mesmo. Linda vista, belo jardim. Mas confesso que ando sentindo falta dos pássaros. Já faz um tempo que não escuto os cantos. Só espero que não tenham migrado para longe, fugindo desse inverno que aparentemente chegou com força total. Continuo os esperando na janela.

Precisa mesmo acordar? Nada de despertador, vai. Só por hoje.
A quiet life with no alarms and no surprises, please.
Silence...



"Mas se era um sonho, repetiu, num sonho pode. Num sonho pode tudo."

quarta-feira, abril 29, 2009

2 + 2 = 5 ...

E é tal qual um blind-date o que acontece diariamente ali em meio àquelas paredes. Eu chamo, nós dois nos olhamos, e a partir daí nunca dá pra saber o que de fato vai ocorrer. Não adianta ficar planejando metodicamente ou decorando muitos scripts.

Tem vezes em que a empatia é instantânea, quase que mágica. O papo flui sem que você precise fazer o menor esforço. E quando me dou conta, já estão a se despir sem o menor constrangimento - como se nos conhecêssemos há séculos.

Tem aqueles que logo na apresentação já dão bom-dia esboçando um sorriso acolhedor, o que acaba alegrando mesmo a segunda-feira mais ingrata. Os sérios e os visivelmente nervosos a gente tenta quebrar com alguma piadinha espirituosa. A piadinha também costuma funcionar com os que não conseguem disfarçar a expressão desconfiada de essa-pirralha-recém-saída-do-colegial-não-deve-saber-nada-de-medicina.

Com os adolescentes, a gente fala sobre música e sexo seguro, e eles ficam me olhando com uma cara espantada quando começo a perguntar o que pensam pro futuro. Porque nessa idade eles têm sonhos lindos, utópicos-e-megalomaníacos, e além de eu adorar escutá-los, nunca é demais ouvirem que podem sim alcançá-los. Mesmo nascendo e vivendo em condições nada ideais - muito menos justas.

Com as vovozinhas, a gente presta atenção nas estórias de vida e elas retribuem com um abraço afetuoso. Vale também mandá-las puxar minha orelha se eu começar a falar muito rápido e atropelando palavras, como é o costume.

Os monossilábicos, os mal-educados, os que te cantam, e os que mal olham na tua cara são um desafio imenso à paciência e ao humor. É quando a gente respira fundo - várias vezes - e tenta dar o fundamental de cuidado de que eles precisam. Ao mesmo tempo em que fica xingando mentalmente e querendo que eles saiam de lá o mais rápido possível.

E é claro que é sempre muito gratificante quando ouço um "muito obrigado" sincero, um "doutora, você é muito atenciosa", ou "queria que fosse você quem me atendesse nas próximas consultas". Mas o que faz valer a pena mesmo, o que me faz ganhar o dia, é quando percebo que talvez algo do que eu tenha dito além medicina vá fazer pelo menos um pouco de diferença na vida daquela pessoa, que vai ressoar de alguma forma – já que sempre ressoa na minha.

Porque não é só examinar, prescrever remedinho, e trabalhar pelo serviço público. Não é só se indignar com os canalhas aos montes, entristecer-se com as desigualdades, e achar que isso te isenta de qualquer culpa. A solução não é ficar com pena, votar, e ir dormir com a consciência tranqüila.

Tem tanto que eles - a senhorinha, o jovem, a mulher do sorriso acolhedor, e o monossilábico - podem fazer por eles mesmos; pequenas mudanças no dia-a-dia, na própria comunidade. Às vezes falta só alguém prescrever lentes e acender luzes pra que eles próprios possam enxergar que há sim um caminho diferente, de melhores condições e oportunidades; que há sim alternativas. E para ter esse carimbo, tal receita, e o isqueiro em mãos não é preciso ter CRM, basta ter RG.

Não é caridade, sabe. É simplesmente fazer a parte que te cabe sempre que algo incomoda. Abster-se também é posicionamento. É contribuir para deixar como está. É de certa forma concordar. Ou pelo menos, não discordar o suficiente.

E óbvio que não é fácil, mas talvez seja menos impossível do que a gente tende a imaginar. Pra um dia vir a dar certo, só é preciso que alguém comece. Só é preciso que eles também se vejam como algo mais; como questionadores, fiscalizadores, e - principalmente - potenciais transformadores disso tudo. Tanto quanto eu. Mais do que eu.
A voz deles pode ser mais forte do que tudo o que tá aí. Merece ser mais forte do que tudo o que tá aí. Porque na verdade, não são eles e eu. Somos nós. Ou pelo menos é como deveria ser.


"Cutucou por baixo, os de cima caem."

sábado, abril 25, 2009

Retórica ...

Don't get any big ideas, they're not gonna happen.
Você já passou por isso antes. Repetidamente.
Espera demais. Idealiza demais. Sempre quer mais. Nunca vai ser o suficiente, percebe?
E uma hora esgota. Foi assim das outras vezes. Ter que lidar novamente com tudo o que fica. Sempre muito. Contigo é sempre muito. Ou nada.

Que tal mais uma chance ao caminho do meio? Aquele seguro, tranqüilo, equilibrado.
Ouvir mais a vozinha da auto-preservação e precaução.
Ir sondando assim aos poucos, silenciosamente. Com os olhos pelo vão da porta. Observando, escutando, tendo certeza. Para daí sim entrar.

Está tudo tão calmo. Sente a brisa. Suave, vê?
Tudo em seu lugar. Naquele espacinho reservado nas estantes. Alfabeticamente ordenado.
Indubitavelmente bons tempos os de agora. Por que não simplesmente senta e aproveita a vista? Por que assoprar o pó se sabe que é alérgica?

Não, não me interessa se quando vem é mais forte do que tudo. Se te faz esquecer todo o racional e sensato e correto.
Você não é apenas reflexos do que te toca. Já está mais do que na hora de começar a escolher o que reprimir e o que permitir.
Esperam isso de ti. Esperas isso de ti. Fala, pensa, escreve. No momento de praticar, cadê?

Invariavelmente vai haver sofrimento no percurso. Cortes antigos. Teus. De outrem. Uns mais que outros. Sabes disso. Talvez melhor do que a maioria.
Nem comece com a história das palpitações que impulsionam. Da vontade de conversas intermináveis sobre o nada. De mostrar e dividir cada pequena coisa que vê.

Pode parar com a bobagem dos sorrisos. Muitos sorrisos. Não quero saber se são tolos. Solitários. Só de imaginar possibilidades. Sem a menor obrigação de acontecer.
Não faz diferença se fazem com que não se lembre mais do que já deu errado, do que vai dar errado, da provável unilateralidade de tudo. De como estava guardado e num instante renasce.

Volta aqui. Nem pense em chegar escancarando a porta. Pulando a catraca e sentando. Sem sequer perguntar o preço da passagem.

Idéias grandes demais, menina. Grandes demais. Não vão acontecer.

Vem. Deita aqui. Sossega.

Grandes demais. Shhh. Vai passar. Shhh. Passarinho. Shhh ...

"Viver é um rasgar-se e remendar-se."

quarta-feira, abril 08, 2009

Uma delicada forma de calor ...

A garotinha de 15 anos e lápis-preto-no-olho - viciada em ICQ, Alanis e Red Hot - sempre imaginou e esperou por tudo isso ansiosa.

A casa "própria", a faculdade dos sonhos. Cerveja, cigarro, amigos, amores, sexo. A vida que finalmente aconteceria para além da internet, dos filmes, dos livros, dos sonhos.

A mulherzinha de 23 anos e lápis-preto-no-olho valoriza sim - e muito - estar aqui, mas anda sentindo saudades.
Das tardes à toa, dos filmes e livros, das músicas, das pessoas. Ah, as pessoas ...

Queria estar mais perto. Queria poder participar mais. Ouvir dos acontecimentos da terça-feira na própria terça-feira. Ouvir as vozes, mesmo que sejam de F2 em F2. E enxergar todos eles, mesmo que sejam os saudosos borrões daqui da ponte aérea, nordestinos, europeus.

O pensamento, todavia, continua sempre junto. Ao passar por algum lugar que desperta lembranças, ao ouvir alguma canção que remete. Ao brindar, ao tragar, ao reconhecer sotaques e palavras fofas pelas ruas da zona que não é a norte, não é a minha.

Por isso os e-mails, os torpedos e scraps, as ligações no final do dia. Porque há sim toda uma nova atmosfera. De atendimentos, procedimentos, cirurgias. Muitas aulas e pouco sono. Há sim novas pessoas.
Mas é aquela coisa toda das raízes. Firmes, fortes, porto-seguro. E eles são as minhas. De onde eu vim. E para onde eu vou sempre que a neblina predomina.

Dificuldade em se desapegar? Sempre tive. Mas não dá para negar que ainda assim continuo andando para frente. Numa velocidade das maiores dos últimos tempos - ora empurrada, ora com pleno controle dos pedais.

E eu nunca fui dessas de não olhar para trás. Porque te lembra do propósito de tudo, do quanto custou chegar, do quanto foi bonito, e do que te moldou assim. Lembra do que um dia pertenceu e agora só permanece na memória, e do que ainda faz parte.

Eles ainda fazem parte. Talvez não da mesma forma e com a mesma frequência. Mas continuam cativos naquele espacinho querido de sempre. Mesmo que agora eu demore dias para dar sinal de vida, deseje parabéns com atraso, esqueça dos horários combinados, e durma em cima das mesas de bares.

É um amor assim meio malandro, mas verdadeiro. A gente sabe, a gente sente.
É só não largar as mãos, eu sou o que eles são. E no fim, é tudo o que realmente importa, não?!

sexta-feira, abril 03, 2009

Just as they play your favourite songs …

Quando dividem momentos intensos, sejam eles bons ou os ruins, pessoas acabam criando e estreitando laços. E é quase que instantâneo. Não importa se são recém-conhecidos ou semi-desconhecidos, se serão laços duradouros ou fugazes, se a conexão é verbal ou silenciosa.
Como que ao identificarmos que há mais alguém ali, sentindo aquela mesma sensação extrema que a gente, enxergamos no outro um pouco de nós mesmos. E pelo menos por alguns instantes, aqueles instantes, temos a impressão que somos todos parte de uma coisa só. Que estamos todos ali compartilhando tal momento ligados por algo maior e transcendental.

E não havia lugar menos propício para se criar laços e transcender que a chácara mais isolada e com a pior infra-estrutura que alguém poderia projetar. Mas havia pessoas dispostas, milhares. E cinco meninos que nasceram com o dom de fazer notas musicais invadirem o corpo, ressoarem na alma, e transbordarem sob a forma de cantos, euforia, lágrimas e catarse.

Era um misto de perplexidade e empolgação. Olhar para eles e para as luzes de inebriar, ouvir e cantar as músicas que embalaram tantos momentos, que já falaram tanto para mim e por mim como por cada um dos trinta e tantos mil companheiros ao redor.

Companheiros debaixo de um céu que ora nos presenteava com chuva from a great high – como se já não estivesse óbvio o quanto havia de almas sendo lavadas por lá –, ora com estrelas num céu quase que limpo – porque tudo aquilo não tinha como ser São Paulo cinza, e sim our fake plastic earth nosso universo paralelo. Um perfeito universo paralelo.

Repleto de olhares trocados entre uma música e outra junto a aplausos e assobios. De sorrisos embasbacados e lágrimas coloridas que teimavam por escorrer. De coros de fazer falhar a voz e sussurros como que em orações.
Porque eram sim orações. Emocionadas e inesquecíveis. Que reverberaram da Pirajussara à Europa.

E eu acho que nunca ouvi tantos: “Agora eu posso morrer”. “Caramba, não estou acreditando!”. “Obrigado, mil vezes obrigado!”.
Porque ganhamos três bis e cento-e-cinqüenta-minutos de mantras. Ganhamos a melhor segunda voz pra canção que nos recusamos a deixar que terminasse. Ganhamos risos, aplausos e reverências daqueles que fomos prestigiar. Ganhamos o que talvez sejam algumas das melhores cenas dos nossos videotapes pessoais.

Agora eu posso voltar pra rotina cansativa, pros plantões infindáveis, pros finais de semana que encolheram, pra série de dúvidas e desafios do dia-a-dia. Porque agora, nesses momentos, a gente re-escuta as canções to keep us warm, se transporta pra lá e levita novamente.
No matter what happens now, agora eu posso morrer. Obrigada, mil vezes obrigada.
(E ah, voltem logo, vai.)

For some minutes there, I lost myself.

domingo, março 01, 2009

Sobre ultimamente ...


Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase imediatamente.

O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham. Às vezes, erro completamente.
O que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los.

Há um perigo: se reflito demais, deixo de agir. E muitas vezes prova-se depois que eu deveria ter agido.
Estou num impasse. Quero melhorar e não sei como. Sob o impacto de um impulso, já fiz bem a algumas pessoas. E às vezes, ter sido impulsiva me machuca muito.

E mais: nem sempre meus impulsos são de boa origem. Vêm, por exemplo, da cólera. Essa cólera às vezes deveria ser desprezada; outras, como me disse uma amiga a meu respeito, são cólera sagrada.
Às vezes minha bondade é fraqueza, às vezes ela é benéfica a alguém ou a mim mesma. Às vezes restringir o impulso me anula e me deprime; às vezes restringi-lo dá-me uma sensação de força interna.

(...)
Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta?
Também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura.

Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso.
Não sou madura o bastante ainda. Ou nunca serei ...

(Lispector, mais uma vez, falando da alma da gente melhor do que nós mesmos)

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Sem filtro, na veia ...



Ai, moreno. Viver é bom.
Esquece as penas. Vem morar comigo em Babylon.

terça-feira, novembro 25, 2008

Caberá o que há de vir ...

Eu ando sempre pra sentir vontade.

domingo, outubro 26, 2008

Xodó ...

A verdade é que eu fico completamente encantada. Toda vez. Vou vendo o azul e os contornos se aproximando, o sorriso vai abrindo de soslaio, e a sensação é a de que every little thing is gonna be alright.
Porque nada neste mundo pode ser tão angustiante e problemático assim quando você tem tudo aquilo esperando por você.

É beleza e história, música e amores, boemia e cultura pulsando de forma tão escancarada ali na tua frente que não tem como não se deixar contagiar, nem como não se deixar apaixonar.
Em pensar que eu perdi tanto tempo cultivando bairrismos e preconceitos quase que congênitos. Mas se fosse de outra forma, em outro momento, talvez não houvesse o início tão significativo e especial.

E é de graça, sabe. E foi à primeira vista.
Não há família e décadas de memórias queridas contribuindo para o sucesso da relação. Houve sim pré-indisposição, mal-resolvidos, e vontade de encontrar mil e um defeitos.
E mesmo agora, conhecendo miséria e misery, o luxo e o lixo, o encanto só se perpetua. Quase perder o vôo de volta não foi mera distração, foi manifestação do subconsciente.

Porque todo mundo, sem exceção, merece vistas de arrancar suspiros, pores-do-sol no Arpoador, Copacabanas, Lapas e carnavais. Todo mundo sem exceção merece a leveza e as picardias.

O retorno recente foi de Salvador, mas quem ainda povoa os pensamentos e inspira os planos Fiocruz-pós-residência é o Rio. Quem ainda marca presença nos sonhos e desperta lembranças tão doces quanto calientes também é ele.

Arromba a retina. Inebria a alma. Aquece o coração.
Podem dizer o que quiser, mas o xodó do povo é o Rio. E mordendo a língua com o maior gosto do mundo, digo que cada vez mais é meu também.

terça-feira, setembro 23, 2008

A-do-le-ta ...

Se a intenção era nos poupar de stress e de conversas delicadas sobre afinidades e desafinidades, eu realmente espero que pros que estão por vir tudo se torne um processo mais tranqüilo, leve e didático. Porque sinceramente eu não agüento mais ter que rediscutir e recolocar à prova meus sentimentos e minha paciência (ou falta de) em relação à dúzia de pessoinhas queridas daquele lugar inóspito.

Não agüento mais gente que não tem opinião sobre as coisas, sabe. Acho que consigo engolir e respeitar muito mais aqueles que discordam diametralmente de mim (mas que se posicionam claramente) do que quem fica a vida inteira em cima do muro e/ou escondendo a opinião (porque não tem o mínimo de coragem de expô-la em prol de uma harmonia totalmente irreal e inexistente). Prefiro mil vezes as coisas honestas e ditas - por mais que machuquem e venham a causar conflito, do que essa calmaria que esconde tudo e simula uma pseudo Paradise City.

E não me sinto nem um pouco mal em assumir que queria sim meus amigos frente ao restante. Porque não vejo sentido em falar de bem coletivo quando a maioria só escolheu participar do experimento visando que ele adivinhasse o já óbvio-subentendido, e somente tirasse de nossas costas o ter de assumir o ônus de nossas escolhas. Acredito que algo maduro e edificante é quando nos ensina a arcar com tudo (de bom e de ruim) nas nossas opções, é quando nos leva a assumir nossas opiniões. E não quando nos dá a possibilidade de dar um “jeitinho” de conseguirmos o que queríamos desde sempre assim na surdina e/ou na malandragem.

Porque em nenhum momento eu senti que houve uma solidariedade para com aqueles que ano após ano acabavam sofrendo e/ou sobrando no decorrer do processo. Assim como não senti que houve solidariedade e preocupação alguma com o bem social quando foi proposto o que foi. Sem terem sido levados em consideração quaisquer sentimentos das pessoas envolvidas na suposta exclusão.

A batata-quente do ter que discutir relação, preterir uns em relação a outros, e apontar dedos nos foi passada forçosamente mais uma vez. E não me sinto uma pessoa pior em ter enxergado no absurdo todo uma chance de conseguir o ideal que parecia cada vez mais utópico. Porque, pra mim, com eles e pra ficar com eles sempre vale a pena, sabe.

Porque eles não me acham vândala nem sugeriram que eu fosse presa por pintar um porão.
Eles não necessariamente compartilham das minhas idéias e ideais, mas não me rejeitam e olham torto por causa disso. Eles chegaram a cogitar abrir mão do que era o ideal-utópico em prol de pessoas que abertamente nos rejeitam.

E é com eles que eu bebo cerveja e falo de coisas sérias a maldades e obscenidades. É com eles que eu, mesmo morrendo de sono, prefiro ficar passando meu tempo fofocando ao invés de dormir nas horas de almoço. São eles que ainda me convencem a comparecer aos programas mais miados e às viagens mais furadas.

É com eles que eu também queria ir pra Fernando de Noronha no internato. É deles que eu sinto saudades toda vez que a gente não se vê por mais de uma semana. E é por causa deles que dá um apertinho no coração ao pensar que mais da metade já foi e que há chances dos próximos dois anos nem serem.

Talvez tenha sido o último momento na vida onde ainda houve a possibilidade de se fazer esse tipo de escolha em relação à convivência e ao ambiente de trabalho. E é por todas essas coisas que eu não consigo me livrar das sensações de frustração e de que uma oportunidade de ouro escorreu pelas mãos. Por qualquer motivo que, pelo menos até o momento, eu não consigo achar que venha a valer a pena.


sexta-feira, setembro 19, 2008

Bom te ver ...

(Ou Crônica dos meros devaneios ébrios)

Longe. Mas ainda bem enquadrado no meu campo visual. Cabelo precisando de um corte. Camiseta com escrito espirituoso. Calça jeans nem muito larga-desleixada nem muito justa-cantor-sertanejo, insinua os contornos nada além do necessário. All Star estiloso.

Conversando com a garota de que não gosto. Não gosto da maioria das garotas. Ainda mais quando com ele.
Ela super inclinada mostrando decote. Piri-piri-piriguete.
O que será que conversam? Talvez ele fazendo insights irônico-sarcástico-engraçadinhos.
Ele sorri. O filho-da-mãe do sorriso. Aquele quê de menino quando sorri não mudou.

Passa a mão pela barba. Acho que vi uma aliança. Meu Deus, ele nunca foi do tipo que usa aliança. Péra, viajei, sem aliança. Ufa.
Barba por fazer. Naquela fase de arranhar um tantinho. O tantinho de causar arrepio bom.
Arrepio bom de quando roça a barba no rosto enquanto sussurra besteira no ouvido. Roça no meu rosto. Sussurra em meu ouvido.
Besteira e convite pra tomar algo no apartamento. No apartamento dele.

Mal espera abrir a porta. Já olha bem fundo no olho. Arqueando a sobrancelha daquele jeito que diz tudo. Me puxando pra perto pelo passante da calça. Sorriso malicioso.
Boca, língua, pescoço. Toques, cheiros. Fôlego, cadê?

Pernas entrelaçando e cambaleando rumo ao quarto. Parada estratégica na parede do corredor.
Prende. Provoca. Vira, desvira. Carrega até o quarto.
Joga na cama. Me joga. Então se joga.
Peças de roupa ao chão. Sorriso safado.

Exame físico minucioso e completo: inspeção, palpação...
Isso, é exatamente aí que tem que soprar.
Taquicardia. Calor.
Febril com certeza, mas confere, vai.
Sucção. Pressão.

Elogia. Diz que me quer.
Aperta. Morde.
Me chama de sua, de tudo mais.

Pletora dez cruzes.
Primeiro superficial, depois profundo.
É babe, se alguém aqui merece o título de doutor definitivamente é você, não eu.

Dedos por entre meus cabelos. Ora despenteando, ora puxando. A outra mão pelo quadril. Meu quadril.
Freqüências subindo à lua: cardíaca, respiratória, arranhatória, gementória, pélvica. Eu subindo à lua. Delirium.
Ausculta abafada, mas ainda presente. Rangeres incompreensíveis. Vogais um tanto quanto tremidas. Escuto um nome. Meu nome. Pausadamente. Ma-ri-a-na...

...

- Mariana?
Levanto os olhos assustada. Tiro os fones de ouvido.
- Te vi ali de longe enquanto conversava. Resolvi vir até aqui te dar um beijo antes de voltar.
Me dá um beijo e um abraço afetuoso.
- Gostei do teu perfume. Mas bem, preciso ir. Sempre bom te ver, menina.
- Vai lá. Bom te ver também.
(Tu não faz nem idéia do quanto...)



segunda-feira, setembro 01, 2008

Is all you need ...

Esteve comigo em alguns dos melhores e piores momentos deste biênio. Presenciou o que talvez tenham sido meus maiores sorrisos, meus abraços mais apertados, meus beijos mais intensos.

E lá estava mais uma vez, cúmplice silencioso do olhar perdido na janela, do aceno tímido e carinhoso quando da decolagem querida, das lágrimas pretas que teimam em escancarar através dos borrões o quanto de mim mesma acaba extravasando - porque fica grande demais pra continuar aqui dentro.
Deve ter sorrido com o déjà vu e pensado – olha lá ela de novo.

Será que ele sabe que a habitué de agora é a mesma garotinha que antes carregava a mochilinha pelos mesmos corredores e já olhava encantada pras pessoas, e lojas, e lugares? E achava que queria ser aeromoça, porque a sensação que ela sentia naquele lugar, com ele, era sempre muito especial. Como se já pressentisse que talvez estivesse destinada a passar por tanta coisa bonita por ali. E a caminho dali.

Será que quando ele me vê ele enxerga tudo?
Não só os olhos brilhando e o coração palpitando da chegada, a Pizza Hut da espera, o chiclete e as revistas do embarque. Mas as promessas e confissões impulsivas, os “te amo” e ”se cuida” mais sentidos e verdadeiros que já disse na vida, a sensação de “to be continued”.

Porque, cá entre nós, eu já me sinto completamente íntima. Nada de formalidades e não-me-toques. Nada de nomes completos ou oficiais. É logo ali, é Cumbica, é de novo. É parte da minha história e do que me é mais caro.
Por todo. Pelos meninos de minha vida seguindo seus caminhos europeus, pela minha Babylon, pelas promessas e confissões impulsivas, pelos “te amo" e “se cuida” ... pelas lágrimas e pedacinhos de mim que ficam por lá a cada despedida, mas principalmente, por tudo o que eu ganho – e que me ganha – a cada revisita ao tão companheiro terminal de desembarque.

domingo, julho 27, 2008

Tchutchucas, uni-vos ...

Me chama de cachorra que eu faço au-au. Agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar. Vai, popozuda, rebolando até o chão.
Ultraje à mulher? Cúmulo do machismo? Meros objetos sexuais? Degradação? Não se dão ao respeito?

Bonitinho mesmo é o nosso discurso de jovens auto-declaradas feministas proclamando o ódio e a revolta contra todo esse tipo de atitude e manifestação. Mas às vezes é preciso ir além da repetição da cartilha fofa e clichê de militante, senão a gente acaba sendo é hipócrita e apenas contribuindo pros estereótipos e preconceitos permanecerem.

Porque, numa boa? Eu defendo piamente o direito da mulher ser de Amélia a totalmente emancipada, de pudica a libertina, de mãe de seis filhos a solteira convicta, de objeto sexual a cachorrona, até mesmo Amélia e putona e objeto sexual em fases sucessivas, inclusive ao mesmo tempo se assim ela bem entender.

A questão pra mim surge quando esse estigma sexual feminino acaba sendo o único e primordial, quando é imposto, ou quando é ele que termina por ditar a forma como se dão as conquistas e as relações sociais e de poder na sociedade.
E vamos combinar que nós mulheres temos um papel mais que fundamental em contribuir para ou impedir que tais bizarrices continuem acontecendo. Efetivamente mais do que meras músicas com letras consideradas machistas que causam tanto furor e frisson.

Quem não se dá ao respeito: a mãe de dois filhos que trabalha durante o dia e à noite vai ao baile funk cachorrona dançar libidinosamente, ou a executiva impecavelmente vestida que aceita as investidas do chefe pra alavancar uma promoção?
Qual a definição de degradação: a mulher que vai até ao chão e quando está com vontade de transar, simplesmente assume, vai lá e trepa com quem interessar; ou a moralista educada que aceita calada ganhar significantemente menos que seu colega homem de trabalho para exercer exatamente a mesma função?

Não vejo o menor problema em dançar/agir/cantar/gostar-de-ser-vista como gostosa/popozuda, desde que isso não seja tudo. Desde que não permita que tal parcela de sua personalidade seja utilizada ora como forma de dominação e humilhação perpetuando as desigualdades, ora para proveito pessoal em cima dos estereótipos que tanto abominamos e lutamos contra.
No fim das contas é tudo uma ideologia de acreditar numa igualdade de direitos e numa liberdade de comportamento e atuações. É aceitar, declarar e assumir todas as diversas/possíveis facetas e vontades do pertencer ao sexo feminino.
Não necessariamente define negativamente teu caráter e anula tuas convicções, sabe. Muito pelo contrário.

Não é trancar-se numa redoma de puritanismo e politicamente correto pra assim galgar espaço e respeito. É poder dançar que é tua potranca e dar risada da letra e etc. e tal, mas ter a liberdade de só agir assim se ela quiser, quando ela quiser, e com quem ela quiser. É poder falar da mesma forma dos homens se ela sentir vontade. Ou não gostar mesmo de nada disso e poder ficar na sua.

Cantar que um tapinha não dói e curtir um durante momentos íntimos não é a mesma coisa que incitar e apoiar a violência contra a mulher. Usar roupas mínimas e provocantes não é pedir pra ser estuprada. Da mesma forma que se comportar e se vestir como uma lady não é sinônimo de inteligência, respeitabilidade e verdadeira feminilidade. Isso sim ainda é machismo fundamentalista besta, percebe?

Mulher vai continuar sendo tachada de submissa, burra, incapacitada e mero objeto de prazer inúmeras vezes durante a vida. Ser mulher hoje em dia é ainda ter que sucessivamente provar inteligência, capacidade, competência e força nas diversas instâncias. E sinceramente, aquelas admiráveis que provam isso provam cantando Pagu ou o Créu, de calça comprida ou de sainha, na faculdade de humanas ou no morro.

Você pode muito bem não concordar com tal e tal comportamento e estilo de vida de pessoas. O que incomoda é quando o julgamento tem pesos e medidas diferentes para homem e para mulher.
Eu mesma não prego respeito cego e admiração por todos os estilos de vida – tenho meus juízos de valores bem fortes em relação às pessoas. Mas concordo com a liberdade de escolha pelos vários jeitos de ser, sem a pressão de se ter que assumir um papel imposto historicamente ou “militantemente”.

É você poder ser mãe de família, casada com o trabalho, esposa perfeita, ou não saber nem sabe fritar um ovo. É escolher ser religiosa monogâmica, atéia com vários parceiros, princesinha, inclusive falar palavrão e ir ao baile sem calcinha quando bem entender.
É lidar com suas decisões e com as conseqüências advindas delas como qualquer outro ser humano, independente de você ter nascido XX ou XY.
E é por essa liberdade e contra esse pré-julgamento estrito de gênero que lutamos todas, não?